CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

CRÔNICAS

  • NOS ESCOMBROS DA TARDE

    NOS ESCOMBROS DA TARDE

    NOS ESCOMBROS DA TARDE Chico Kleber Perdido no lusco-fusco da paisagem, procurei em minha face algum sentido, escondido nos recônditos difusos dos labirintos de tantos disfarces. Nos escombros da tarde, abracei a solidão em mim colmatada no tempo e espaço. Anunciava-se a chegada da noite, seus sortilégios, bichos noturnos, suas feras e linhagens. Sob imenso…

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  • A CONFRARIA DOS ESTRUPIADOS

    A CONFRARIA DOS ESTRUPIADOS

    A CONFRARIA DOS ESTRUPIADOS Depois do acidente vascular cerebral, passei nove dias internado na UTI do Hospital Neurológico. Era um lugar insípido, extremamente gelado, onde eu ainda não conseguia dimensionar a extensão da lesão que havia sofrido. Não sabia direito o que acontecera comigo. Muito menos o que sobrara de mim. Meu cotidiano se resumia…

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  • O DIA EM QUE VIREI ARGENTINO

    O DIA EM QUE VIREI ARGENTINO

    O DIA EM QUE ME TORNEI UM ARGENTINO Depois do segundo AVC, entre as tantas coisas que meu corpo desaprendeu, estava dirigir. Passei então a depender diariamente de táxis para ir às sessões de fisioterapia no CRER-Centro de Recuperação e Reabilitação Dr.Henrique Santillo,cá em Goiânia. Naquela época, minha fala também havia sofrido um pequeno terremoto.…

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  • O AUTÓGRAFO DE GIANFRANCESCO GUARNIERI

    O AUTÓGRAFO DE GIANFRANCESCO GUARNIERI

    O AUTÓGRAFO DE GUARNIERI “Crescer vendo meu pai esperar a volta do Linense para a primeira divisão do Paulista fez com que eu compreendesse a dimensão épica do futebol; que entendesse que há forças e significados muito maiores do que se depreende dos reles números do placar ou da tabela.” — Antonio Prata No ano…

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  • CHICO CESAR NA COVA COM OS LEÕES

    CHICO CESAR NA COVA COM OS LEÕES

    CHICO CÉSAR NA COVA DOS LEÕES Certa vez, o compositor e cantor paraibano Chico César foi fazer um show nos festejos de São João de Conceição do Jacuípe, na Bahia. E não era festinha de quermesse, não. O negócio reunia cerca de cem mil pessoas. As três atrações principais da noite eram Forróçacana, Chico César…

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  • ARACY DE ALMEIDA E O SHOW MAIS SILENCIOSO DO MUNDO

    ARACY DE ALMEIDA E O SHOW MAIS SILENCIOSO DO MUNDO

    ARACY DE ALMEIDA E O SHOW MAIS SILENCIOSO DO MUNDO Há artistas que pedem silêncio. Aracy de Almeida não pedia. Aracy providenciava. Escangalhava. Dona de uma das personalidades mais singulares da música brasileira, intérprete definitiva de Noel Rosa, carregava consigo uma combinação rara: voz inconfundível, inteligência afiada, nenhuma paciência para cerimônias e uma língua capaz…

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  • ANDRE DE SAPATO NOVO

    ANDRE DE SAPATO NOVO

    ANDRÉ DE SAPATO NOVO Há músicas que nascem de um amor, de uma saudade, de uma revolução. Outras nascem de um sapato apertado. “André de Sapato Novo” pertence gloriosamente à segunda categoria. Conta-se que André Victor Corrêa, compositor e músico de mão cheia, certa noite resolveu comparecer a um baile devidamente preparado para a ocasião.…

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  • VIRGULINO LAMPIAÕ ,O PRIMEIRO ESTILISTA BRASILEIRO

    VIRGULINO LAMPIAÕ ,O PRIMEIRO ESTILISTA BRASILEIRO

    VIRGULINO LAMPIÃO, O PRIMEIRO ESTILISTA BRASILEIRO Trilha sonora: “Espelho Cristalino”, Alceu Valença Pouco se fala disso. Quando pensamos em Lampião, quase imediatamente aparecem o rifle, o chapéu de couro, a cartucheira, a caatinga esturricada, a volante levantando poeira no sertão. Mas antes do estampido havia a agulha. Antes da cartucheira, a linha. Antes de Virgulino…

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  • NAS ASAS DA PANAIR

    NAS ASAS DA PANAIR

    NAS ASAS DA PANAIR Há músicas que chegam à nossa vida antes que tenhamos idade suficiente para compreendê-las. Mesmo assim, compreendemos. Não com a cabeça. Com alguma outra parte de nós. Foi assim comigo e “Saudades dos Aviões da Panair”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, gravada por Elis Regina. Eu era menino e, quando…

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  • A INVISIBILIDADE DO CADEIRA INVISÍVEL NO SURPREENDENTE MUNDO NOVO

    A INVISIBILIDADE DO CADEIRA INVISÍVEL NO SURPREENDENTE MUNDO NOVO

    A INVISIBILIDADE DO CADEIRA INVISÍVEL NO SURPREENDENTE MUNDO NOVO Trilha sonora: “Nalgum Lugar”, Zeca Baleiro — com Chaplin em preto e branco no quadro. Maio de 2015. Quinto mês após o segundo AVC. Diante da hemiparesia — perda dos movimentos do lado esquerdo do corpo — provocada pelo severíssimo AVC que me atingira, passei a…

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  • URODINÂMICA, A DINÂMICA DO MEDO E O FINADO BREGA SINGER WANDO

    URODINÂMICA, A DINÂMICA DO MEDO E O FINADO BREGA SINGER WANDO

    “O correr da vida embrulha tudo.A vida é assim: esquenta e esfria,aperta e daí afrouxa,sossega e depois desinquieta.O que ela quer da gente é coragem.”— Guimarães Rosa CRER — Centro de Recuperação e Reabilitação Dr. Henrique Santillo, Goiânia, Goiás — 4º mês de internação após o segundo AVC, 2014. Trilha sonora: “Fogo e Paixão”, Wando;…

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  • DA FEIJOADA AO CHÁ DE DONA ZICA

    DA FEIJOADA AO CHÁ DE DONA ZICA

    DA FEIJOADA AO CHÁ DE DONA ZICA Há muitos anos ouvi, numa dessas conversas em que a memória brasileira vai passando de boca em boca, uma história envolvendo Ciro Monteiro, Cartola e Dona Zica. Nunca encontrei registro escrito do episódio. Como o causo ficou teimosamente alojado em minha memória, resolvi registrá-lo aqui — antes que…

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  • JUNIOR MARVIN,A ERVA SAGRADA, OS FALSOS RASTAFARIS DE GOIANIA E TORA TORALINA NA CIDADE DE GOIÁS.

    JUNIOR MARVIN,A ERVA SAGRADA, OS FALSOS RASTAFARIS DE GOIANIA E TORA TORALINA NA CIDADE DE GOIÁS.

    Na foto ,cúmplices: da esquerda para direita: Claudio Ortencio,Frederico Vale, Claudio Peppe, Elmar Santana Juniort,Frederico Praxedes,Raphael Veiga.Ao centro Junior Marvin, e à sua direita,Don Hannah Trilha sonora: “Lively Up Yourself” — Junior Marvin, ao vivo em Londres, 1977. Goiânia, algum tempo entre 2000 e 2006. O lendário guitarrista jamaicano Junior Marvin, que tocara durante anos…

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  • RICK WAKEMAN,O DRUIDA DOS DEDOS MÁGICOS,A RUBÉOLA E SEUS EFEITOS COLATERAIS EM GOIÂNIA

    Mais de quarenta anos depois, o ingresso ainda está aqui — amarelado, amarrotado, decaído no tempo. Sobreviveu à chuva, à rubéola, às mudanças da vida e a mim. Há pedaços de papel que não guardam apenas datas. Guardam quem fomos. Goiânia, 3 de outubro de 1981. Uma persistente, fria e incômoda chuva assolava a capital…

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  • CACAREJA,GALINHA,CACAREJA!

    Há uma história que ouvi alhures, há muitos anos, e que ficou cristalizada em minha memória afetiva. Por não ter encontrado nenhum registro escrito a respeito, resolvi tentar resgatá-la dos recônditos dos meus escassos e resistentes neurônios e, do meu jeito, registrá-la. Vamos lá. Conta-se que, certo dia, o saudoso Nelson Rodrigues estava na sede…

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  • Sanguessugas e a sanfona mágica do mestre André

    Chico Kleber O ano era 1974. No sertão piauiense, a seca não era notícia. Era paisagem. Terra dura, água pouca, casas pobres e uma dignidade que não precisava de retrato na parede. Percebia-se logo no primeiro olhar, nas retinas quase tristes e, ainda assim, esperançosas daquela brava gente brasileira. Fomos visitar a velha e humilde…

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  • O dia em que o mundo chegou a São João do Piauí debaixo de uma lona.

    O dia em que o mundo chegou a São João do Piauí debaixo de uma lona.

    1976. A minúscula e onírica São João do Piauí mais se assemelhava a uma aldeia encravada no sertãozão. Como toda boa aldeia que se prezasse, possuía uma bela praça, onde parte da população ostentava sua vontade de ser moderna: garotos e garotas de calças boca de sino, tamancões de madeira, cabelos longos e camisetas curtas…

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