Na foto ,cúmplices: da esquerda para direita: Claudio Ortencio,Frederico Vale, Claudio Peppe, Elmar Santana Juniort,Frederico Praxedes,Raphael Veiga.Ao centro Junior Marvin, e à sua direita,Don Hannah
Trilha sonora: “Lively Up Yourself” — Junior Marvin, ao vivo em Londres, 1977.
Goiânia, algum tempo entre 2000 e 2006.
O lendário guitarrista jamaicano Junior Marvin, que tocara durante anos ao lado de Bob Marley na banda The Wailers, aportou em Goiânia e por aqui ficou durante um bom tempo, depois de se casar com uma brasileira, goianiense.
Nesse período, estabeleceu contato musical com alguns queridos amigos músicos da cidade. Vieram as inevitáveis jam sessions regueiras, regadas a música, cerveja e certas coisitas transcendentais.
Eu mesmo tive o privilégio de tocar com a lenda em duas oportunidades.
Até que surgiu um convite para Junior Marvin e a banda formada pelos amigos goianienses se apresentarem na antiga capital do Estado: a Cidade de Goiás, nossa Goiás Velho, terra de Cora Coralina.
Embarcaram felizes para o périplo musical.
Afinal, viajavam com uma peça raríssima da história do reggae: testemunha e participante de uma época extraordinária, guitarrista dos Wailers e companheiro musical de ninguém menos que Bob Marley.
Junior Marvin era — como Marley — adepto do movimento Rastafari.
E aqui cabe uma pequena parada antes de nossa viagem prosseguir.
O rastafarianismo nasceu na Jamaica entre trabalhadores e camponeses afrodescendentes e encontrou em Haile Selassie, imperador da Etiópia, uma de suas figuras centrais. Mais do que uma estética de dreadlocks, cores e reggae, carregava consigo ancestralidade africana, resistência ao colonialismo, espiritualidade e uma maneira própria de compreender a relação do homem com a natureza.
Para muitos rastafáris, a ganja não era simplesmente maconha.
Era erva sagrada.
Seu uso ritual podia representar comunhão, meditação e aproximação com o divino.
Feito esse pequeno intróito — indispensável para compreender o tamanho da encrenca que viria a seguir —, voltemos aos nossos falsos rastafáris goianienses.
Ao chegarem à velha capital, os músicos se acomodaram numa pousada e, durante a tarde, reuniram-se para ensaiar as canções do show do dia seguinte.
Em determinado intervalo, Junior Marvin começou a demonstrar certa inquietação.
Até que perguntou:
— Cadê a erva de vocês, amigos?
Silêncio.
Logo apareceu um dos goianienses com um fininho.
Acendeu o baseado.
Junior Marvin olhou aquilo.
Olhou de novo.
E indignou-se:
— Como é que é? Isso é erva que se apresenta? Esse negocinho de nada, fininho e todo babado? Vocês não respeitam o uso dela! Isso é um insulto aos deuses. Cadê o resto da maconha?
Os falsos rastafáris de Goiânia se entreolharam.
E, aos poucos, timidamente, começaram a esvaziar seus esconderijos.
De um bolso saía uma trouxinha.
De outro, um pequeno naco.
De algum mocó secreto, aparecia mais um punhado.
Junior Marvin recolheu tudo.
Depois acrescentou sua própria provisão jamaicana ao pequeno patrimônio botânico goianiense.
Juntou aquela erva toda na mão esquerda e começou, solenemente, a dichavar.
Dichavou.
Dichavou.
Dichavou.
Os goianos observavam, observaram,observaram.
Quando terminou, Junior Marvin iniciou a confecção do baseado.
Mas aquilo não era um baseado.
Era praticamente um charuto cubano de ganja.
Os músicos, habituados aos seus fininhos esqueléticos, contemplavam assombrados aquela obra de engenharia rastafári.
Pelo tamanho, pela espessura e, certamente, por estarem em plena terra de Cora Coralina, alguém imediatamente batizou a criatura:
TORA TORALINA.
E assim nasceu a lenda.
Ao entardecer na Cidade de Goiás, enquanto a poesia de Cora Coralina parecia ainda escorrer pelos becos da velha capital, Junior Marvin acendeu a Tora Toralina.
Como sacerdote natural daquela liturgia, coube a ele dar as primeiras baforadas.
Em poucos minutos, uma fumaça monumental tomou conta do ambiente.
Era fumaça suficiente para causar inveja às máquinas de fumacê da Prefeitura de Goiânia em guerra contra o Aedes aegypti.
A Tora Toralina passou de mão em mão.
Quando finalmente terminou a sessão, voltaram ao ensaio.
Junior Marvin estava outro homem.
Plenamente sintonizado com seu universo rastafári, sorria mais, parecia leve e suas mãos corriam ainda mais ágeis pela guitarra.
Já os nossos falsos rastafáris goianienses…
Esses estavam em situação bastante diferente.
Sem costume com a potência daquela erva, ficaram meio grogues, atordoados, esquecendo acordes aqui, atravessando ritmos acolá, tentando desesperadamente manter alguma dignidade musical diante de um guitarrista dos Wailers.
E diz a lenda — porque toda boa história, depois de certo ponto, merece virar lenda — que a fumaça daquela tarde foi tamanha que até os passarinhos presos nas gaiolas da pousada começaram subitamente a pular de poleiro em poleiro, tomados por uma inexplicável euforia.
E pareciam entoar, em coro:
— Piu, piu… Lively Up Yourself… piu, piu!
Talvez fosse a erva.
Talvez fosse Junior Marvin.
Talvez fosse Cora Coralina soprando poesia pelos becos de Goiás Velho.
Ou talvez fosse simplesmente o reggae fazendo aquilo que sempre soube fazer:
transformar fumaça em ritmo e revolução de costumes em uma tarde qualquer em história.
E o ritmo era regueiro.
Salve, Junior Marvin!
Salve, Bob Marley!
Chico Kleber

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