CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

O CORDEL DO CANGAÇO LITERÁRIO

O CORDEL DO CANGAÇO LITERÁRIO

Aqui é cabra valente,
que não se entrega, não;
se Corisco tinha o Parabelo,
nós temos lápis na mão.
Quando a palavra se avexa,
fazemos revolução.

Não careço de cartucho,
nem pólvora no bornal;
carrego verso atrevido,
munição sentimental.
Se a palavra puxa a peixeira,
vira briga literária —
fantasia transcendental,
ilusão cangaceira.

Lampião tinha a caatinga,
eu tenho imaginação;
ele riscava veredas,
eu cartografo o sertão.
Onde o mapa perde o rumo,
faço verso e direção.

Tenho carnaúba extraviada,
Baleia latindo ao poente,
um circo debaixo da lona,
um menino ainda presente.
E uns fiapos de memória
que não morrem facilmente.

Se o passado arma tocaia
nas quebradas do juízo,
faço do medo cantiga,
da cicatriz, improviso.
Sou Virgulino das dores, Virgulino das letras,
cangaceando o impreciso.

Não me entrego à volante
que persegue inspiração;
quando cercam minha escrita,
fujo pela contramão.
Trapaceio algumas nuvens
e teço abismos no chão.

E se perguntam meu nome
quando a noite vem ligeira:
— Sou Chico Kleber, bom de verso,
sem patente nem bandeira.
Meu Parabelo é a palavra,
e a poesia, a cartucheira.

Chico kleber

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