DA FEIJOADA AO CHÁ DE DONA ZICA
Há muitos anos ouvi, numa dessas conversas em que a memória brasileira vai passando de boca em boca, uma história envolvendo Ciro Monteiro, Cartola e Dona Zica.
Nunca encontrei registro escrito do episódio.
Como o causo ficou teimosamente alojado em minha memória, resolvi registrá-lo aqui — antes que o tempo, esse velho larápio, o carregue de vez.
O saudoso e excelente compositor e cantor carioca Ciro Monteiro possuía o apelido de Formigão.
E não era apelido gratuito.
Ciro tinha um insaciável apetite. Possuía uma fome pantagruélica: comia muito mesmo. Era um poço sem fundo com ritmo de samba.
Aos sábados, era comum Dona Zica, esposa do grande compositor Cartola, preparar aquela feijoada.
E a feijoada dela era um verdadeiro banquete dos deuses — simples, arrebatadora, deliciosa.
Ciro Monteiro era o primeiro a aportar na casa de Cartola e Zica.
Chegava bem cedinho e só saía por volta das quinze horas.
Em um desses almoços, para variar, comeu feito um glutão.
Terminada a batalha gastronômica, foi diretamente ao banheiro.
Pouco depois, atravessou a sala e começou a suar frio.
Ficou morrendo de medo de que fosse a morte que estivesse chegando. Encostou-se na parede e ali permaneceu, lamentando-se daquele mal súbito.
Um menino que se encontrava no almoço percebeu a situação e saiu correndo para avisar Dona Zica:
— Dona Zica! Dona Zica! O Formigão tá passando mal lá na sala!
Dona Zica, preocupadíssima, correu imediatamente ao quintal, onde cultivava suas ervas, e colheu algumas para preparar um chá digestivo para o Formigão.
Em poucos minutos, o chá estava pronto.
Zica entrou na sala com a xícara nas mãos e logo ofereceu a Ciro:
— Tome, que vai ficar bonzinho com esse chá.
Ciro encarou Dona Zica.
Depois, olhou para a xícara.
E, sem titubear, perguntou:
— Zica… é só o chá mesmo? Não tem nenhuma bolachinha pra acompanhar?
Era o Formigão.
Nem diante da possibilidade da morte perdia o apetite.
Chico Kleber

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