“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.”
— Guimarães Rosa
CRER — Centro de Recuperação e Reabilitação Dr. Henrique Santillo, Goiânia, Goiás — 4º mês de internação após o segundo AVC, 2014.
Trilha sonora: “Fogo e Paixão”, Wando; e Leão da Montanha, saída pela esquerda.
Quando ainda me encontrava internado no CRER — Centro de Recuperação e Reabilitação Dr. Henrique Santillo, em Goiânia —, havia severas restrições à circulação dos pacientes. Nada de sair do hospital. A medida visava evitar quedas e outras intercorrências, e nosso pequeno território de liberdade se resumia aos quartos e ao saguão do andar.
Era ali que, diariamente, nos reuníamos antes e depois das sessões de fisioterapia.
Engalfinhados em cadeiras de rodas, andadores, muletas, órteses e próteses, formávamos o nosso batalhão dos estrupiadinhos da reabilitação — os bravos legionários do terceiro andar.
O saguão funcionava como uma espécie de psicoterapia coletiva sem psicólogos nem psiquiatras.
Chorávamos e ríamos dos nossos infortúnios. Contávamos piadas, comparávamos perdas e pequenos progressos, falávamos dos tratamentos, das evoluções, das desilusões e, naturalmente, das indispensáveis fofocas internas do CRER.
Até que aparecia um calouro.
Paciente recém-chegado.
Bastava o infeliz apontar no saguão para começar o buchicho entre os veteranos.
E alguém lançava a pergunta:
— Você já fez a urodinâmica?
Silêncio.
Os veteranos então assumiam aquela expressão piedosa reservada aos condenados:
— Coitado do calouro… Calma. Sua hora vai chegar.
Ninguém explicava direito o que era o exame.
O que, evidentemente, tornava tudo muito pior.
Os recém-chegados tentavam imaginar que espécie de suplício se escondia atrás daquela palavra comprida e aparentemente científica:
urodinâmica.
Eu não era exceção.
Fiquei com tanto cagaço que cheguei a implorar à psicóloga que me atendia — e gostava muito de mim — para que intercedesse em meu favor e me livrasse daquele exame.
Eu estava em verdadeiro estado de pânico.
E isso não era força de expressão.
Meu apelo, porém, resultou infrutífero.
Certa manhã, um maqueiro aportou no meu quarto, levantou-me da cama, acomodou-me na cadeira de rodas e anunciou:
— Amigão, vamos descer pra fazer um exame.
Tentei imediatamente negociar com o destino:
— Exame? Mas eu já fiz uma centena deles! Está tudo perfeitamente controlado!
Fui logo catando a papelada: exames de sangue, RNI, ressonâncias dos vasos arteriais e cerebrais, tudo quanto era documento capaz de provar que aquele homem já havia sido suficientemente investigado pela medicina.
O maqueiro olhou para mim e, sem qualquer piedade, decretou:
— Não é nenhum desses, não. O que você vai fazer é outro.
Congelei.
Putz…
Caramba.
Chegara o meu dia.
A urodinâmica.
Um travo na garganta.
Um aperto no estômago.
Pensei:
— É hoje.
Como um bicho maluco em retirada estratégica, feito o Leão da Montanha do desenho animado da minha infância, só faltou soltar aquele barulhinho de carro com a garganta:
— Vruuuummmmmm…
Mas quem assumiu o papel de piloto foi o maqueiro.
O homem resolveu descer comigo pelos corredores do CRER como se disputasse a última volta de um Grande Prêmio.
Empurrava minha cadeira de rodas numa velocidade alucinante, fazia barulho de Fórmula 1 com a boca e ainda gritava:
— Segura que é nóis na fita! Segura que é nóis!
E lá fomos nós.
O maqueiro, falso Ayrton Senna.
Eu, passageiro involuntário daquele bólido hospitalar.
Hei de confessar que aqueles instantes de velocidade me proporcionaram uma sensação que havia muito tempo eu não experimentava.
Aprisionado a uma cadeira de rodas, depois do AVC, por alguns momentos me senti novamente livre.
Livre como um pássaro.
Era como se estivesse correndo com minhas próprias pernas.
Ou, quem sabe,
flutuando com minha alma.
Por alguns segundos, esqueci a cadeira.
Esqueci o hospital.
Esqueci até que estava sendo levado para a temida urodinâmica.
Mas Ayrton Senna de araque tinha destino certo.
E chegamos.
Putz…
Acabara a Fórmula 1.
Começava o suplício.
Como parte de um protocolo médico, o CRER realizava o exame de urodinâmica em pacientes cujas condições neurológicas poderiam afetar a função miccional.
Até aí, tudo muito científico.
O problema era a parte prática da ciência.
Ao chegar ao lugar onde o exame seria realizado, saí imediatamente da exultação daquela breve sensação de liberdade para o caos do meu abissal e tenebroso pensamento.
Mal atravessei a porta e vi uma cama.
Olhei melhor.
A cama tinha um buraco no meio.
Vish Maria…
Pensei:
— É hoje o dia da agonia.
Para meu alívio — e paradoxal constrangimento — descobri que o exame seria realizado por duas mulheres.
O alívio tinha uma explicação.
Os veteranos do saguão espalhavam histórias aterradoras sobre o competente Dr. Ruitter, que possuía mais de dois metros de altura.
E, a bem da verdade, não era exagero da turma: Dr. Ruitter sofria de gigantismo, enfermidade que explicava sua estatura excepcional.
Mas, na fértil imaginação dos apavorados pacientes, o gigantismo do médico ganhava contornos ainda mais assustadores: além dos mais de dois metros, falava-se de suas mãos enormes.
E, como se isso não bastasse, diziam que ele tinha como assistente um negão a quem haviam apelidado de Alegria, por causa do enorme sorriso branco contrastando com a pele.
Na mitologia dos veteranos do terceiro andar, os dois já haviam adquirido proporções de personagens de filme de terror.
Pensei, aliviado:
— Ufa! Pelo menos escapei das mãos do doutor e do tal Alegria.
Escapei deles.
Mas não escapei da urodinâmica.
Uma das moças, loira, tentou me tranquilizar:
— Deite na cama. Não se constranja. O exame é tranquilo. Relaxa…
Relaxa?
Olhei novamente para aquela cama com um buraco no meio.
Depois para os instrumentos.
Depois para ela.
E pensei:
— Fácil falar…
Deitei.
E começou a invasão do meu território ultramarino.
A moça foi introduzindo aquele negócio uretra abaixo.
Putz…
Depois veio uma sonda. Em seguida, líquido na bexiga, para medir capacidade de retenção, pressão do esfíncter e outras coisas que, naquele momento, pouco me interessavam conhecer cientificamente.
Eu tinha preocupações mais urgentes.
A vontade de urinar foi crescendo.
Crescendo.
CRESCENDO.
E eu ali, tentando colaborar com a ciência.
Foi quando, ainda me acostumando à dor e ao incômodo daquela primeira invasão, senti alguma coisa acontecendo em outra fronteira do meu combalido território.
Opa!
Tinha mais novidade chegando.
Outra sonda.
Agora pelo fiofó.
Pensei imediatamente:
— Pronto. Era só o que me faltava.
E, diante daquela ofensiva simultânea, concluí silenciosamente:
— Pronto. Estou sendo invadido pela área norte e pela área sul. Plano Piloto. Virei Brasília, Distrito (Detrito) Federal!
Caramba!
Com tanto sofrimento acumulado, quatro meses de hospital, eu ali todo estrupiado e ainda merecia aquilo?
— Meu Deus, que foi que eu fiz?
A essa altura, a compostura já havia pedido alta hospitalar antes de mim.
Soltei um escrachado:
— Pô! Que merda de exame é esse? Já tá acabando?
As duas responderam quase ao mesmo tempo:
— Calma, moço. Relaxa! Se você não relaxar, o exame terá que ser repetido. Tem que relaxar a musculatura…
Repetido?!
Essa palavra me atingiu com violência muito maior do que qualquer sonda.
Não.
Aquilo não se repetiria.
Nem que eu precisasse atingir o nirvana ali mesmo.
Mas havia um pequeno problema.
Quanto mais elas diziam:
— Relaxa…
mais eu me contraía.
— Relaaaxaaa…
Mais eu endurecia tudo.
— Moço, precisa relaxar…
E eu, por dentro:
— Como é que relaxa, criatura?!
A coisa foi ficando kafkiana.
As duas insistindo naquele:
— Relaaaxaaa…
— Relaaaxaaa…
— Relaaaxaaa…
Já de saco cheio, comecei a ouvir as duas como uma dupla sertaneja do inferno, cantando em perfeita segunda voz:
— Relaaaxaaa…
Foi quando minha paciência acabou.
E minha velha verve irônica assumiu o comando da situação.
Bradei:
— Tá bom! Querem que eu relaxe? Então tragam pra mim um uísque doze anos, com muito gelo, e coloquem no som de vocês aquela canção do finado Wando!
As duas pararam.
Olharam para mim.
E eu, já entregue à esculhambação, comecei:
— Você é luz, é raio, estrela e luar…
E completei:
— Aí, sim, a gente relaxaaaaa pra valer!
As duas caíram na gargalhada.
Eu também.
E alguma coisa mudou naquela sala.
Por alguns instantes, deixamos de ser duas profissionais realizando um procedimento e um paciente apavorado submetido a ele.
Éramos três pessoas rindo da situação absolutamente insólita em que a vida havia nos colocado.
A tensão diminuiu.
O exame pôde prosseguir.
Pouco depois, estava terminado.
E fui liberado.
O melhor de tudo: estava tudo perfeitamente saudável.
Depois de tanto medo, tanto pânico, tanta fantasia dos veteranos, tanta sonda e tanto:
— Relaaaxaaa…
estava tudo bem.
Resumo da ópera bufa:
a vida nos submete a desafios.
A coragem é necessária, embora nem sempre esteja disponível na quantidade que gostaríamos.
Às vezes, ela vem disfarçada.
Pode aparecer empurrando uma cadeira de rodas pelos corredores de um hospital, fazendo:
— Vruuuummmmmm…
Pode surgir durante alguns segundos na sensação de estar novamente correndo com as próprias pernas.
Ou flutuando com a alma.
E pode até aparecer, quando tudo mais falha, na forma de uma piada absolutamente inconveniente acompanhada por uma velha canção do Wando.
Porque descobri naquele dia que o medo tem sua própria dinâmica.
Mas o humor também.
E, para mim, continua sendo o melhor anestésico da existência.
Chico Kleber

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