A INVISIBILIDADE DO CADEIRA INVISÍVEL NO SURPREENDENTE MUNDO NOVO
Trilha sonora: “Nalgum Lugar”, Zeca Baleiro — com Chaplin em preto e branco no quadro.
Maio de 2015.
Quinto mês após o segundo AVC.
Diante da hemiparesia — perda dos movimentos do lado esquerdo do corpo — provocada pelo severíssimo AVC que me atingira, passei a andar de cadeira de rodas.
Fiquei nela durante oito duríssimos meses.
Nessa época, eu andava com um motorista particular, que me carregava literalmente no volante e no braço para os destinos que eu precisava alcançar.
Certo dia, pedi a ele que me levasse a uma drogaria para comprar alguns medicamentos.
Dirigimo-nos ao local.
Ao chegarmos, o motorista perguntou se eu queria permanecer no carro ou sair.
Acredito que ele tenha torcido muito pela primeira alternativa, pois assim não precisaria carregar aquele corpo todo desconjuntado, acomodá-lo numa cadeira de rodas e enfrentar toda a operação necessária para me pôr em movimento.
Mas aquela era uma oportunidade para que eu pudesse ver a vida como ela era.
As pessoas normais.
A luz do sol.
Naquele período, eu me esquivava de quase tudo. Achava que todos me olhavam. Como tinha dificuldade de articular compreensivelmente as palavras, preferia ficar deitado quase o dia inteiro em casa, dialogando com minha dor.
Olhei para o motorista e disse:
— Eu vou.
E imediatamente fiz uma carinha de “é isso aí, né? O mundo desde sempre não espera ninguém”.
Depois de uma luta danada com meu corpo desconjuntado, finalmente me sentei naquele objeto andante e entramos radiantes na farmácia, tal como uma dupla nupcial entrando na igreja.
Passei a olhar os produtos e a observar as pessoas e os ruídos da vida.
De repente, entrou no estabelecimento um pedinte, com uma espécie de copiloto de necessidades, solicitando ajuda a cada pessoa e contando uma triste e comovente história.
Vi que ele pediu, indistintamente, a todos que estavam ali.
Aos clientes.
Aos balconistas.
Aos atendentes.
E até ao responsável por aplicar injeções nas bundas dos infortunados.
Articulei minha mão direita com dificuldade pelos bolsos da calça, à procura de algum dinheiro para ajudar aquele pobre irmão.
Consegui, com esforço incomum, separar uma quantia e fiquei esperando que ele se aproximasse para lhe entregar o tutu.
Observei atentamente seus passos.
Ele fez novas incursões de petição pelo restante das pessoas que estavam no interior da loja e começou a caminhar em minha direção.
Preparei-me.
Fiz uma cara amistosa e um sorriso torto, pois, naquela época, a paralisia facial pós-AVC me deixara com a boca de Coringa, quase mordendo a orelha esquerda.
Ele se aproximou.
Um metro.
Talvez meio metro.
Estendi discretamente a mão.
E então aconteceu.
O homem olhou para mim, mudou de direção e desviou-se atleticamente, como se tivesse incorporado Usain Bolt.
Passou direto.
Não me pediu absolutamente nada.
Imediatamente pensei comigo:
— Putz, tô fudido mesmo.
E imaginei que o amigo infortunado tivesse dito para si mesmo:
— Esse aí não. Esse tá mais derrotado que eu. Vou pedir nada a ele, não.
Confesso que não foi uma sensação confortável.
Experimentei na pele, de maneira singular, aquilo que tantas pessoas com deficiência, idosos, pobres e tantos outros relegados às margens experimentam diariamente:
a invisibilidade.
Eu tinha saído de casa querendo voltar a enxergar o mundo.
E descobri, naquela drogaria, que a droga do mundo talvez não estivesse mais me enxergando.
Depois de tudo passado, já dentro do carro, alfinetei o motorista:
— Viu só? Ninguém mais me olha e nem me vê. Nem pedinte, nem ladrão, nem porra nenhuma.
Ele tentou me confortar:
— Liga pra essa bobagem não, doutor.
Mas percebeu rapidamente que eu não estava propriamente chateado. Eu já começava a transformar a desgraça em outra coisa.
Então aproveitou para brincar comigo.
Chamou-me de perneta invisível e outras sacanagens afins.
Rimos juntos por uns dez minutos.
E talvez aquela gargalhada tenha sido também uma pequena forma de reaparecer.
Depois daquele episódio, ainda enfrentei muitos outros capítulos de olhares curiosos e daquela estranha sensação de invisibilidade, principalmente depois que abandonei a cadeira de rodas e voltei a andar, ainda muito cambaleante, parecendo um bêbado, puxando a perna esquerda e dando chutes, tal qual o Capitão Gancho.
Todavia, com o tempo, fui protagonizando heroico e invisível personagem.
Passei também a me entronizar com o poderoso mantra:
Foda-se.
E com aquela frase atribuída a Friedrich Nietzsche:
“O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte.”
Foi assim.
Está sendo.
E, de alguma maneira,
para sempre será.
Chico Kleber

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