
Mais de quarenta anos depois, o ingresso ainda está aqui — amarelado, amarrotado, decaído no tempo.
Sobreviveu à chuva, à rubéola, às mudanças da vida e a mim.
Há pedaços de papel que não guardam apenas datas.
Guardam quem fomos.
Goiânia, 3 de outubro de 1981.
Uma persistente, fria e incômoda chuva assolava a capital goiana.
Éramos adolescentes, cabeludos, cheios de sonhos, aficionados e absolutamente loucos por música. Naquela noite, o lendário tecladista do Yes, Rick Wakeman — o druida de dedos mágicos —, estaria no velho Estádio Olímpico de Goiânia.
Havia apenas dois pequenos problemas.
O primeiro era que São Pedro parecia disposto a afogar a cidade.
O segundo era que eu estava com rubéola e quase quarenta graus de febre.
Nenhum dos dois, evidentemente, tinha autoridade suficiente para me impedir de ir.
Passamos aquela tarde em estado de apreensão. A chuva não dava sinais de arrefecimento e nossa chance de ver ao vivo um dos grandes ídolos da música mundial era coisa raríssima na Goiânia daqueles tempos.
Amávamos o cara.
Por isso, apelamos aos céus.
Entoamos brincadeiras, fizemos danças imaginárias e recorremos a toda espécie de pajelança meteorológica para convencer São Pedro a fechar, pelo menos por algumas horas, as comportas celestiais.
Funcionou pela metade.
A noite chegou e a chuva diminuiu, mas não parou.
Dane-se.
Por volta das dez horas, começava nossa Viagem ao Centro da Terra, título de um dos mais célebres trabalhos solo de Wakeman.
E nós iríamos junto.
À nossa frente estava um dos grandes nomes do rock progressivo e sinfônico, pianista de formação clássica que escolhera o rock e construíra uma carreira cercada de teclados, mitologia, reis, rainhas, planetas, viagens cósmicas e delírios musicais.
Eu já era uma espécie de projeto de músico amador — incipiente, curioso e metido a entender alguma coisa — e, mesmo de longe, contemplava no palco instalado sobre o gramado aquilo que me parecia um arsenal bélico-sonoro: pianos acústicos e elétricos, sintetizadores, Minimoog, Mellotron, órgão Hammond, clavicórdios e outras máquinas misteriosas.
Aquilo não era um palco.
Era a cabine de comando de uma nave espacial.
Só faltava o druida.
E, para falar a verdade, havia entre nós uma pequena desconfiança provinciana.
Será que Rick Wakeman viria mesmo?
Goiânia jamais havia presenciado um espetáculo internacional daquela magnitude. No fundo, alguns receavam que aquilo tudo pudesse ser armação de algum maluco disposto a arrancar dinheiro de um bando de goianienses otários e depois desaparecer na madrugada.
Mas não.
De repente, numa piscada de olhos, lá estava ele.
Rick Wakeman invadiu o palco com a banda, vestindo aquelas roupas que pareciam saídas de alguma lenda medieval, o cabelão louríssimo descendo pelas costas, quase se arrastando na bunda, e começou a despejar sobre nós seu universo musical.
Rei Arthur.
Távola Redonda.
Castelos.
Cavaleiros.
Espaço sideral.
E nós ali, debaixo da chuva goiana, viajando pela Inglaterra medieval e pelo cosmos sem sair do Estádio Olímpico.
E quem disse que a chuva atrapalhou?
Que nada.
Sobre a grama do estádio haviam colocado grandes lonas protetoras — não para proteger nossas nobres cabeças, evidentemente, mas o gramado.
A rapaziada resolveu corrigir esse equívoco administrativo.
Em pouco tempo, aquelas imensas lonas de um inesquecível tom marrom-cocô estavam erguidas sobre nossas cabeças.
Cinematográfico.
As pessoas, antes espalhadas pelo estádio, foram se agrupando debaixo daquele enorme cobertor improvisado. O espaço diminuiu. Os corpos se aproximaram. A temperatura subiu. Os enamorados ficaram mais enamorados ainda.
Tudo se tornou estranhamente bonito, aconchegante e quente naquela noite molhada e fria.
Era como se milhares de pessoas tivessem puxado juntas um gigantesco cobertor sobre a cabeça para assistir ao melhor programa possível antes de dormir.
Só que havia um pequeno efeito colateral não previsto pelos engenheiros da lona.
A fumaça.
Um neguinho de um extremo acendia o cigarrito da alegria da rapaziada e, dali a pouco, o cheiro atravessava toda aquela arquitetura improvisada.
A maresia crescia vertiginosamente.
A fumaça impregnava a lona, percorria aquele imenso casulo marrom e deixava uma parte considerável da plateia mareada, lívida e flutuante, hipnotizada pela erva, pela chuva e, sobretudo, por aquele sujeito de cabelos compridos que parecia possuir não dez dedos, mas vinte.
Ou trinta.
Ou talvez nenhum.
Talvez Wakeman tocasse por feitiçaria.
Naquela noite, qualquer hipótese era aceitável.
Mas nem tudo poderia ser tão perfeito.
O tempo, esse velho ladrão, poderia levar embora aquelas lembranças.
Era necessário que alguma coisa as gravasse definitivamente em mim.
E gravou.
A rubéola.
Eu assistia àquele espetáculo com febre beirando os quarenta graus e o corpo todo empolado.
Havia contraído a doença pouco antes, numa viagem noturna ao Rio Quente, na antiga Pousada do Rio Quente, no interior de Goiás.
Mas quem se importava?
Eu queria Rick Wakeman.
A febre que esperasse.
Ou passasse.
Ou fizesse o que bem entendesse.
Dane-se.
Ainda assim, comportei-me como um cidadão epidemiologicamente responsável dentro das limitações científicas de um adolescente cabeludo em 1981: não beijei nenhuma garota naquela noite, para não espalhar o vírus.
Sacrifício considerável.
O mais extraordinário, porém, aconteceu nos dias seguintes.
Naquela época, sabia-se do enorme perigo da rubéola durante a gravidez. E, por isso, algumas moças que planejavam futuramente casar e ter filhos apareceram na casa dos meus pais com uma intenção que hoje parece absolutamente surreal:
queriam pegar minha rubéola.
Isso mesmo.
Enquanto eu havia passado o show inteiro evitando transmitir a doença, elas se aproximavam deliberadamente do enfermo.
Eu havia me transformado numa espécie de centro doméstico de imunização por métodos medievais.
Rick Wakeman era o druida.
Mas o bruxo, pelo visto, era eu.
Superado o mal-estar, restou o essencial.
O show foi fantástico.
Wakeman, simpático e exuberante, desfilou com sua banda por aquele universo que tanto nos fascinava: lendas da velha Inglaterra, reis, rainhas, astrologia, viagens espaciais, trilhas cinematográficas e paisagens sonoras que pareciam abrir buracos no teto do mundo.
Saímos maravilhados.
Molhados.
Provavelmente esfumaçados.
E eu, além de tudo, febril e empolado.
Muitos anos se passaram.
O velho Estádio Olímpico desapareceu.
Aquela Goiânia desapareceu.
A lona marrom-cocô desapareceu.
A rubéola foi embora.
Os cabelos de muitos daqueles adolescentes também.
Até a chuva daquela noite deve ter evaporado há muito tempo e retornado ao mundo em outras tempestades.
Uma febre, porém, nunca cedeu.
A música.
Naquela noite de outubro de 1981, enquanto uma febre ardia no meu corpo, outra se instalava definitivamente na alma.
A primeira passou.
A segunda ficou.
E continua ardendo em mim.
Infinitamente.
Chico Kleber
Goiânia, 2016
Do meu livro –Do Caos ao Cosmos, do Cosmos ao Cais
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