CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

CACAREJA,GALINHA,CACAREJA!

Há uma história que ouvi alhures, há muitos anos, e que ficou cristalizada em minha memória afetiva. Por não ter encontrado nenhum registro escrito a respeito, resolvi tentar resgatá-la dos recônditos dos meus escassos e resistentes neurônios e, do meu jeito, registrá-la.

Vamos lá.

Conta-se que, certo dia, o saudoso Nelson Rodrigues estava na sede do jornal carioca Última Hora, de Samuel Wainer, debruçado sobre sua máquina de escrever, redigindo uma de suas viscerais crônicas.

Era comum Nelson interromper o que estava escrevendo para, estrategicamente, tomar seu cafezinho e fumar um cigarro, já que fumar não era permitido dentro da redação.

Em um desses intervalos dedicados aos vícios da cafeína e da fumaça, o colega, grande amigo e escritor Otto Lara Resende resolveu aprontar uma brincadeira com Nelson.

Impávido e infalível como Muhammad Ali, sentou-se à mesa do amigo e começou a ler o que o cronista tricolor estava escrevendo.

Otto percebeu que se tratava de uma daquelas malucas e escabrosas histórias de Nelson sobre adultério, na qual eram relatadas as desgraças de um infeliz marido traído.

A última frase escrita por Nelson antes da pausa para o café era:

“…e o traído atravessou a rua.”

Otto, mineiro perspicaz, sentado diante da máquina de Nelson, resolveu continuar exatamente de onde o amigo havia parado:

“Atravessou a rua, entrou em um armazém e comprou um saco de milho.”

Consumada a sabotagem literária, levantou-se e, rápido como The Flash, evadiu-se do local.

Pouco depois, Nelson voltou, sentou-se diante da máquina e retomou a crônica que integraria sua página de A Vida Como Ela É…, sucesso absoluto entre os leitores do jornal.

Leu a última frase — já furtivamente emendada pelo amigo Otto — e, sem titubear, continuou:

“Ao sair do armazém, dirigiu-se à sua casa. Lá chegando, chamou a mulher, entregou-lhe o saco de milho e vociferou:

— CACAREJA, GALINHA, CACAREJA!!!”

Singularíssimo, sarcástico e preciso.

Sempre Nelson!

Chico Kleber

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