CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

ALFABETO DE CICATRIZES

Escrevo com o que doeu:

cada letra, um nervo ainda aceso.

Há um idioma secreto

que só os feridos decifram:

consoantes de silêncio,

vogais abertas em carne viva.

Traduzo-me.

Do grito ao sussurro,

do corte ao contorno,

do abismo ao traço que insiste.

Sou poliglota de mim:

falo a língua das perdas,

dos recomeços,

das mãos que tremem

mas não largam o lume.

Toda cicatriz

é palavra que sarou torta,

mas falou alto.

E no dicionário íntimo que conheço,

dor não é fim:

é verbo em trânsito,

travessia,

matéria-prima de luz

que secretamente invento!

Chico Kleber

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