
Escrevo com o que doeu:
cada letra, um nervo ainda aceso.
Há um idioma secreto
que só os feridos decifram:
consoantes de silêncio,
vogais abertas em carne viva.
Traduzo-me.
Do grito ao sussurro,
do corte ao contorno,
do abismo ao traço que insiste.
Sou poliglota de mim:
falo a língua das perdas,
dos recomeços,
das mãos que tremem
mas não largam o lume.
Toda cicatriz
é palavra que sarou torta,
mas falou alto.
E no dicionário íntimo que conheço,
dor não é fim:
é verbo em trânsito,
travessia,
matéria-prima de luz
que secretamente invento!
Chico Kleber
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