CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

CHICO CESAR NA COVA COM OS LEÕES

CHICO CÉSAR NA COVA DOS LEÕES

Certa vez, o compositor e cantor paraibano Chico César foi fazer um show nos festejos de São João de Conceição do Jacuípe, na Bahia.

E não era festinha de quermesse, não.

O negócio reunia cerca de cem mil pessoas.

As três atrações principais da noite eram Forróçacana, Chico César e, fechando a festa, Calcinha Preta.

A ordem já dizia muita coisa.

Chico percebeu rapidamente que aquela multidão estava mesmo era esperando a Calcinha Preta.

Quando terminou o show da Forróçacana, aproximou-se do vocalista da banda e perguntou:

— E aí, negão, como foi?

A resposta veio seca:

— Rapaz, Chico, nunca fui tão ignorado por tanta gente.

Pronto.

Era exatamente o estímulo de que Chico César precisava antes de entrar diante de cem mil criaturas.

O paraibano começou imediatamente a pensar num repertório de sobrevivência. Precisava tocar coisas mais animadas, fazer o povo pular, dançar, mexer o esqueleto — e, principalmente, evitar vaias, ovos, tomates e outras manifestações menos líricas da crítica musical brasileira.

Pouco antes de entrar no palco, algumas dançarinas da Calcinha Preta apareceram em seu camarim para tirar fotografias.

Chico, já angustiado com o destino que o aguardava, lembrou-se de uma canção do amigo pernambucano Alceu Valença:

“Eu fui jogado entre as feras…”

Era isso.

Estava prestes a entrar na cova dos leões.

Quando chegou sua vez, Chico entrou pulando e tratou logo de atacar:

— A fogueira tá queimando, em homenagem a São João…

Era preciso estabelecer algum parentesco imediato com aquela multidão.

Não adiantou muito.

De vez em quando, quando aparecia uma música mais conhecida e animada, como “Mama África”, umas vinte mil pessoas resolviam prestar atenção.

O que, convenhamos, já constituía uma pequena multidão.

Chico ia sobrevivendo.

Cantava, pulava, administrava a situação e procurava manter intacta a própria integridade física e artística.

Até que percebeu três pessoas espremidas junto à grade: dois homens e uma mulher.

E os três berravam:

— Chicooooo! Toca “Sahariêne”!

Chico deve ter pensado que aquilo só podia ser provocação.

“Sahariêne” era justamente uma de suas canções mais lentas, intimistas e minimalistas.

Ou seja: tudo aquilo de que cem mil pessoas esperando Calcinha Preta não precisavam naquele momento.

Os três, entretanto, insistiam:

— Toca “Sahariêne”, Chico!

Ele olhava.

Eles gritavam.

Ele fingia que não escutava.

Eles gritavam mais.

Chico fez o cálculo elementar da sobrevivência: atender aos três significava correr o risco de despertar os outros noventa e nove mil novecentos e noventa e sete.

Seguiu o show.

E não tocou “Sahariêne”.

Terminada a apresentação, Chico César respirou aliviado.

Sobrevivera à cova dos leões.

Dirigiu-se ao camarim imaginando que o perigo havia passado.

Não havia.

Quando chegou, lá estavam os três.

Tinham conseguido entrar.

E não eram fãs ocasionais.

Eram devotos.

Moravam numa comunidade hippie no alto de uma serra, nos arredores de Conceição do Jacuípe. Tinham caminhado quilômetros para assistir ao show. Conheciam a obra de Chico, guardavam discos, fotografias, entrevistas, recortes.

Sabiam tudo do paraibano.

E estavam indignados.

— Oxe, Chico, que decepção! A gente andou quilômetros para lhe ver. Somos seus fãs, moramos lá no alto da serra, pedimos “Sahariêne” o show inteiro e você simplesmente ignorou a gente!

Chico tentou explicar.

Falou das cem mil pessoas.

Falou da natureza da festa.

Falou do repertório.

Talvez tenha pensado em explicar também que havia acabado de escapar com vida.

Nada adiantou.

O chororô continuou.

Os três estavam verdadeiramente magoados.

Então aconteceu aquilo que transforma um episódio engraçado em alguma coisa maior.

Chico César pegou o violão.

Sentou-se numa cama do camarim.

Os três ripongas se acomodaram ao redor.

E ali, depois de ter cantado para cem mil pessoas, Chico César começou outro show.

Para três.

Sem palco.

Sem refletores.

Sem multidão.

Sem obrigação de fazer ninguém pular.

Finalmente tocou “Sahariêne”.

Os três choraram.

Chico também se emocionou.

Talvez estivesse ali o verdadeiro concerto daquela noite.

Lá fora, dezenas de milhares de pessoas esperavam a próxima atração.

Dentro daquele quarto, quatro pessoas dividiam uma canção.

E penso que a música às vezes gosta dessas ironias.

Pode haver cem mil pessoas diante de um palco e quase ninguém realmente escutando.

E pode haver apenas três, sentadas numa cama de camarim, para que uma canção encontre finalmente o lugar aonde queria chegar.

Chico César escapara das feras.

Mas, diante daqueles três sujeitos que atravessaram quilômetros por uma música, não havia escapatória possível.

Ainda bem.

Chico Kleber

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