CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

ARACY DE ALMEIDA E O SHOW MAIS SILENCIOSO DO MUNDO

ARACY DE ALMEIDA E O SHOW MAIS SILENCIOSO DO MUNDO

Há artistas que pedem silêncio.

Aracy de Almeida não pedia.

Aracy providenciava. Escangalhava.

Dona de uma das personalidades mais singulares da música brasileira, intérprete definitiva de Noel Rosa, carregava consigo uma combinação rara: voz inconfundível, inteligência afiada, nenhuma paciência para cerimônias e uma língua capaz de produzir estragos consideráveis.

Anos mais tarde, muita gente acabaria conhecendo aquela extraordinária cantora apenas como a jurada sisuda dos programas de calouros de Silvio Santos.

Sentada à bancada, cercada pela algazarra dominical da televisão, Aracy parecia observar tudo com o tédio de quem já havia visto coisa muito melhor na vida.

E provavelmente havia.

Quando Silvio lhe perguntava:

— Quanto vale o show do calouro, Darcy?

Ela disparava, sem gastar munição:

— Dez mangos e tá passando de bom!

Mas muito antes da televisão transformar sua rabugice em personagem popular, Aracy já possuía fama de não levar desaforo para casa.

Nem para o camarim.

Nem para o palco.

Conta-se que, em São Paulo, por volta de 1960, Aracy se preparava para uma apresentação quando percebeu duas mulheres numa mesa próxima ao palco.

Conversavam alto.

Muito alto.

Aracy aguardou.

Talvez tenha imaginado que, quando começasse a música, elas se calariam.

Não se calaram.

O conjunto começou a tocar e as duas continuaram conversando, agora competindo alegremente com os músicos.

Aracy entrou no palco.

Começou a cantar.

E nada.

As duas seguiam naquela conferência particular, como se tivessem comprado não apenas uma mesa, mas também o direito de estabelecer a trilha sonora do estabelecimento.

Aracy tentou continuar.

Até que, entre uma frase musical e outra, ouviu claramente uma das mulheres comentar com a companheira:

— Nossa! Como a Aracy tá velha!

Pronto.

Há um instante misterioso em que o simples mortal se transforma em artista.

Aracy interrompeu o show.

Mandou o conjunto parar.

Pediu que acendessem as luzes.

O salão inteiro ficou imóvel.

Então procurou a autora do comentário entre as mesas e respondeu, diante de todos:

— Eu tô velha, mas sou a Aracy de Almeida. E você quem é, sua filha de uma puta?!

O salão veio abaixo.

Gargalhadas.

Palmas.

Assobios.

Aracy não esperou bis.

Virou as costas e saiu do palco.

Durante aproximadamente meia hora, ninguém sabia se ela voltaria.

Voltou.

O conjunto retomou seus lugares.

Aracy aproximou-se novamente do microfone.

E começou a cantar.

Dizem que, daquela vez, ninguém falou.

Ninguém cochichou.

Ninguém arrastou cadeira.

Talvez ninguém sequer tenha ousado respirar mais alto.

E Aracy de Almeida, intérprete de Noel Rosa, senhora absoluta do próprio palco, fez naquela noite uma proeza que poucos artistas conseguiram repetir:

o show mais silencioso de toda a sua carreira.

Chico Kleber

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