CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

ANDRE DE SAPATO NOVO

ANDRÉ DE SAPATO NOVO

Há músicas que nascem de um amor, de uma saudade, de uma revolução.

Outras nascem de um sapato apertado.

“André de Sapato Novo” pertence gloriosamente à segunda categoria.

Conta-se que André Victor Corrêa, compositor e músico de mão cheia, certa noite resolveu comparecer a um baile devidamente preparado para a ocasião.

Havia namorada.

Havia música.

Havia dança.

E havia, sobretudo, um par de sapatos novos.

André chegou elegante, satisfeito consigo mesmo e provavelmente convencido de que aquela seria uma grande noite.

O sapato novo era bonito, elegante, coisa fina. Só havia um pequeno problema: era apertado.

Apertado, não. Arrochadíssimo.

Daqueles que fazem o sujeito começar a noite pensando na namorada e terminá-la pensando exclusivamente nos próprios dedos.

No começo, André resistiu.

Homem apaixonado suporta muita coisa.

Sapato apertado, inclusive.

Dançava um pouco, sorria para a namorada, tentava manter a compostura e seguia adiante, como se nada estivesse acontecendo.

Mas estava.

O danado do sapato começou a cumprir lentamente sua missão de tortura.

Primeiro, um incômodo.

Depois, uma dorzinha.

Em seguida, a inevitável bolha d’água — essa pequena invenção do demônio destinada a lembrar ao homem que elegância e sofrimento às vezes caminham dentro do mesmo calçado.

André então desenvolveu uma estratégia de sobrevivência.

Dançava.

Parava.

Massageava o pé.

Respirava.

E voltava para a dança.

Dançava mais um pouco.

Parava novamente.

Massageava outra vez o pé martirizado.

Até que chegou o momento em que nem o amor, nem a música, nem a presença da namorada conseguiram competir com aquela calamidade instalada dentro do sapato.

André desistiu.

Foi para casa.

E aí aconteceu a pequena alquimia que separa o simples mortal do artista.

Outro homem talvez tivesse jogado o sapato pela janela.

André fez música.

Pegou uma folha de papel e transformou o suplício daquela noite no chorinho “André de Sapato Novo”.

E há um detalhe delicioso nessa história.

As paradinhas da composição reproduziriam justamente as interrupções que André fazia durante o baile para massagear o pé dolorido.

O homem parava porque doía.

A música para porque doía.

A dor virou pausa.
A pausa virou ritmo.
E o ritmo virou choro.

Mais tarde, a composição ganharia interpretações memoráveis de Altamiro Carrilho e Jacob do Bandolim, dois grandes nomes da música instrumental brasileira.

E assim aquele pobre sapato, que começara a noite como símbolo de elegância e terminara como instrumento de suplício, acabou conquistando uma espécie de imortalidade musical.

No fim das contas, o sapato cumpriu um destino muito maior do que aquele para o qual havia sido comprado.

Não serviu direito para dançar.

Mas serviu maravilhosamente para fazer música.

E talvez seja essa uma das pequenas vinganças da arte:

quando a vida aperta demais, a gente afrouxa o sapato e compõe um choro.

Chico Kleber

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