VIRGULINO LAMPIÃO, O PRIMEIRO ESTILISTA BRASILEIRO
Trilha sonora: “Espelho Cristalino”, Alceu Valença
Pouco se fala disso.
Quando pensamos em Lampião, quase imediatamente aparecem o rifle, o chapéu de couro, a cartucheira, a caatinga esturricada, a volante levantando poeira no sertão.
Mas antes do estampido havia a agulha.
Antes da cartucheira, a linha.
Antes de Virgulino Ferreira da Silva se transformar em Lampião, aquele homem sabia cortar, costurar, bordar e trabalhar o couro e o metal.
E fazia isso muito bem.
Até os 21 anos, Virgulino foi um excelente alfaiate. Desenhava, costurava, bordava e trabalhava como artesão, sendo conhecido no sertão pela qualidade de seus trabalhos.
Só depois vieram a vingança, o cangaço e a construção daquela figura que entraria definitivamente para o imaginário brasileiro.
Talvez por isso Lampião tenha compreendido muito cedo uma coisa que hoje chamaríamos de poder da imagem.
Ele não queria apenas ser visto.
Queria ser reconhecido.
À distância.
De imediato.
Sem possibilidade de engano.
Os chapéus ornamentados, as estrelas, moedas, medalhas, metais, lenços, bornais, cartucheiras e desenhos geométricos não estavam ali por acaso.
O couro virou tela.
A roupa virou linguagem.
O corpo virou território.
Lampião vestiu o cangaço.
E, de certa maneira, inventou uma identidade visual para ele.
Pode-se dizer que realizou uma verdadeira revolução estética no sertão. Sua imagem e a de seus companheiros atravessaram as fronteiras do Nordeste, correram o Brasil, ganharam fotografias, livros e, muitos anos depois, chegariam ao cinema — inclusive pelas mãos de Glauber Rocha e do Cinema Novo.
Era uma espécie de marketing de guerra antes que alguém no sertão precisasse saber o que significava marketing.
A roupa identificava.
Distinguia.
Impressionava.
E também intimidava.
Lampião parecia compreender que o medo começa, muitas vezes, pelos olhos.
Mas havia outro aspecto curioso naquele universo.
Até 1928 não era permitida a presença de mulheres no bando.
Isso mudaria com Maria Bonita.
Depois dela, outras mulheres passaram a integrar o cangaço, modificando definitivamente a paisagem humana daqueles grupos.
E aqui aparece um paradoxo delicioso.
Num ambiente aparentemente dominado pela brutalidade, pela perseguição, pela pólvora e pela morte, havia homens sentados diante de máquinas de costura.
Costurando.
Bordando.
Trabalhando couro.
Inventando formas.
As mulheres não eram necessariamente as responsáveis pelas roupas.
O bando possuía exímios costureiros.
Mais curioso ainda: a habilidade com a agulha chegou a ser considerada por Lampião na incorporação de novos integrantes ao grupo.
Imagine a cena.
Caatinga.
Sol rachando pedra.
Rifle encostado num canto.
E um cabra sendo observado não apenas pela pontaria, pela coragem ou pela disposição para enfrentar a volante.
— E de costura, cabra, entende?
Há alguma coisa profundamente brasileira nessa imagem.
A mesma mão que segurava a arma precisava conhecer a delicadeza da linha.
O mesmo homem que atravessava a caatinga perseguido podia, algumas horas depois, debruçar-se sobre um pedaço de couro para produzir um desenho.
Pólvora e bordado.
Rifle e Singer.
Sangue e linha.
Contradições que talvez expliquem por que o cangaço permaneceu tão fortemente alojado no imaginário brasileiro.
Quando Lampião e seus companheiros foram mortos e degolados, suas cabeças foram expostas ao lado de objetos considerados símbolos importantes daquele universo.
Entre eles estavam duas máquinas de costura Singer.
O detalhe é quase uma síntese.
Ao lado da morte, a máquina que costurava.
Ao lado da violência, o instrumento da criação.
Ao lado do mito Lampião, uma pista do homem Virgulino.
Talvez tenhamos olhado durante tempo demais apenas para o rifle.
E pouco para a agulha.
Porque, antes de se tornar um dos personagens mais temidos e controversos da história do sertão, Virgulino Ferreira da Silva já sabia que um homem também pode construir sua lenda pela maneira como se apresenta ao mundo.
Lampião não inventou apenas uma maneira de viver no cangaço.
Inventou uma maneira de vesti-lo.
E, diante disso, permanece a pergunta que escrevi tantos anos atrás e que ainda hoje me diverte:
Quem sabe, se tivesse nascido em outra época, Lampião não teria se tornado um outro Denner ou um Clodovil?
Chico Kleber

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