NAS ASAS DA PANAIR
Há músicas que chegam à nossa vida antes que tenhamos idade suficiente para compreendê-las.
Mesmo assim, compreendemos.
Não com a cabeça.
Com alguma outra parte de nós.
Foi assim comigo e “Saudades dos Aviões da Panair”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, gravada por Elis Regina.
Eu era menino e, quando ouvia aquela canção, inexplicavelmente meus olhos se enchiam de lágrimas.
Não sabia exatamente o que era a Panair.
Não conhecia os subterrâneos políticos de sua história.
Não sabia de concessões cassadas, falências, perseguições ou golpes.
Mas alguma coisa naquela música me atravessava.
Talvez eu tenha sido desde cedo um sujeito transbordante, principalmente quando havia música no meio.
Décadas depois, compreendi melhor aquelas lágrimas.
A canção falava de aviões, cerveja, Coca-Cola, viagens e lembranças. Mas falava, sobretudo, de uma coisa muito maior:
um país que havia perdido alguma coisa no caminho.
A Panair do Brasil fora uma das grandes companhias aéreas brasileiras, levando o nome do país para rotas internacionais e participando de um período em que voar ainda carregava certa promessa de futuro.
Até que, em 10 de fevereiro de 1965, menos de um ano depois do golpe militar, suas concessões de voo foram cassadas abruptamente pelo governo Castello Branco.
Cinco dias depois, veio a decretação da falência.
Era o fim de uma companhia aérea brasileiríssima.
Mas não apenas isso.
Era também o desaparecimento de um símbolo.
Talvez por isso Fernando Brant tenha transformado a Panair em matéria de memória, e Milton Nascimento tenha lhe dado asas novamente.
Quando Elis Regina gravou a composição, houve receio de que o próprio título chamasse a atenção da censura. Fernando Brant contou posteriormente que Elis enviou a música para exame da censura apenas como “Conversando no Bar”, deixando de fora “Saudades dos Aviões da Panair”.
O detalhe é extraordinário.
Até sentir saudade podia parecer perigoso.
Porque determinadas saudades carregam perguntas.
E determinadas perguntas carregam memória.
A história ainda levaria muitos anos para revolver os escombros deixados pela Panair. Em dezembro de 1984, o Supremo Tribunal Federal deu ganho de causa à empresa em uma disputa na qual reconheceu que a União tentava cobrar dívidas que já haviam sido pagas. Décadas mais tarde, a Comissão Nacional da Verdade concluiria que a liquidação da companhia fora arbitrária e motivada politicamente.
Mas nada disso eu sabia quando menino.
Eu só ouvia Elis.
E chorava.
Talvez algumas canções saibam antes de nós aquilo que um dia compreenderemos.
Hoje, quando volto àquela música, encontro o menino que fui e finalmente consigo explicar um pouco de suas lágrimas.
Um pouco.
Porque música boa não se explica inteiramente.
Nem saudade.
E muito menos certas feridas de um país.
Algumas permanecem voando sobre nós.
Nas asas da Panair.
Chico Kleber

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