A CONFRARIA DOS ESTRUPIADOS
Depois do acidente vascular cerebral, passei nove dias internado na UTI do Hospital Neurológico.
Era um lugar insípido, extremamente gelado, onde eu ainda não conseguia dimensionar a extensão da lesão que havia sofrido. Não sabia direito o que acontecera comigo. Muito menos o que sobrara de mim.
Meu cotidiano se resumia a contar coisas.
Buraquinhos nas janelas.
Luzes no teto.
Pequenas imperfeições nas paredes.
Era uma maneira de dizer a mim mesmo que ainda estava vivo.
No último dia de UTI, dois enfermeiros risonhos se aproximaram do leito:
— Hoje você vai sair daqui. Vai para um quarto normal.
Boa notícia.
Só havia um pequeno detalhe.
Ao lado deles, reluzente como uma sentença, estava uma cadeira de rodas.
Congelei.
Até aquele instante eu não compreendera que o AVC havia paralisado praticamente todo o lado esquerdo do meu corpo. Os enfermeiros me levantaram da cama e, tchan-tchan-tchan, depositaram o antigo Procurador do Estado naquele objeto de rodinhas.
Foi quando as fichas começaram a cair.
Todas de uma vez.
Ao passar por um corredor espelhado, vi um sujeito torto, troncho, barba por fazer, despenteado, boca tortíssima, quase mordendo a própria orelha, sentado numa cadeira de rodas.
Olhei para ele.
Ele olhou para mim.
Infelizmente, éramos a mesma pessoa.
Pensei:
— Rapaz, o trem descarrilou da forma mais feia do que eu imaginava.
Depois de voltar para casa, comecei no CRER o longo caminho da reabilitação.
Cheguei lá convencido de que era a pessoa mais pebada da face do planeta.
Não andava. Não mexia direito a perna, o pé, o braço, a mão nem os dedos do lado esquerdo. A paralisia facial entortara minha boca; a voz saía pastosa; assoviar, nem pensar. Tocar minhas guitarras parecia pertencer à vida de outro sujeito.
O mundo havia desabado antes mesmo do apocalipse.
Então o CRER me deu o primeiro tapa de luva de pelica.
Olhei em volta.
Havia crianças, adolescentes, adultos e velhos enfrentando batalhas muito maiores que a minha. Gente reaprendendo a sentar, levantar, falar, segurar um objeto, dar um passo.
E muitos deles sorriam.
Foi ali que conheci Luiz, gaúcho, também sobrevivente de um AVC, dono de uma boca ainda mais torta que a minha.
A identificação foi imediata.
Olhei para ele e pensei:
— Rapaz… achei um caboco mais torto do que eu. Estou bem na fita.
Nascia ali, sem ata de fundação, estatuto, eleição de diretoria ou firma reconhecida em cartório, a Confraria dos Estrupiados.
Éramos sobreviventes de AVCs, acidentes, síndromes, doenças neurológicas, quedas, cirurgias e outras rasteiras que a existência distribui sem consultar ninguém.
Cada qual carregando sua avaria.
E sua esperança.
No começo eu ainda trazia comigo restos do homem de antes: o Procurador do Estado, os ternos de corte moderno, o doutor Francisco Kleber.
No CRER, virei apenas Chico, o tortinho cadeirante.
Uniforme azul, às vezes maior do que meu manequim, corpo desobediente e a descoberta de uma uma nova e desafiadora elegância ,sem precisar das formalidades, que precisava aprender a existir sem paletó.
A vaidade foi embora cedo.
Ainda bem.
Vieram então os amigos de verdade.
Luiz, o Boca Torta.
Rodrigo, o Britadeira, cuja ataxia fazia o corpo inteiro entrar em movimento quando caminhava.Era de fato uma britadeira ambulante.
João Bodera, nosso jovem Tufão, capaz de encarar um bolo recheado acompanhado de uma Coca-Cola de dois litros e ainda olhar em volta procurando a sobremesa.
Havia o Hot Wheels, que, colocado sobre boias na piscina, batia as pernas numa velocidade alucinante, espalhando água em todo mundo. Quando ouvia o apelido, abria um sorriso meio banguela que iluminava a hidroterapia inteira.
Seu Messias, palmeirense, quase dois metros de altura, nosso goleiro das piscinas.
Gustavo, atleta da bicicleta adaptada, braços quase da grossura das minhas pernas.
Lindomar, o Barranco Man, que fora parar aliparaplégico, depois de despencar de um barranco e filosofava sobre a urgência de voltar a comer churrasco e beber cerveja assim que o corpo permitisse.
Gabriel, o GabriElvis, nosso poeta da taradice, distribuindo cantadas, versos e gracejos românticos pelas dependências do CRER.
Tínhamos Debi e Loide.Eram irmãos, Debi tinha o corpo todo torto e ferrado, ja o Loide, tinha o corpo sem avarias, mas a cabeça, essa era atrapalhada demais, quase infantil.
Tínhamos o The Flash,que mesmo sem uma perna, era rapidinho na locomoção com ajuda de uma bengala.Confesso que ,na época ,ele me fazia inveja.
Tínhamos Marlos, nosso Highlander,pois fazia operações complicadas e logo retornava ao nosso convívio de estrupiados,com sorriso e esperança nos olhos.
Tínhamos o Mestre Yoda.
Tínhamos até os nossos sexagenários indestrutíveis,Euvaldo e o negão Fortaleza.
E eu anunciava solenemente , brincando,que estava treinando para conquistar uma vaga de titular no time dos sacis.
Ninguém escapava.
Nem os fisioterapeutas.
Talvez por isso funcionasse tão bem.
Ali descobri uma coisa que nenhum tratado sobre reabilitação havia me ensinado:
quando a tragédia perde a cerimônia, sobra espaço para a vida entrar.
Ríamos das nossas quedas.
Das pernas que não obedeciam,quando essas ainda existiam.
Das mãos que haviam declarado independência.
Dos exames constrangedores.
Das trapalhadas.
Dos pequenos fracassos.
E comemorávamos ferozmente cada pequena vitória.
Um dedo que mexia.
Uma perna que respondia.
Um primeiro passo.
Uma palavra pronunciada com clareza.
Uma alta.
Coisas insignificantes para quem nunca as perdeu transformavam-se, entre nós, em acontecimentos épicos.
Havia também noites difíceis.
Choro.
Medo.
Dor.
A angústia de imaginar se voltaríamos a ser quem éramos.
Mas talvez estivesse justamente aí o engano.
Não voltaríamos.
Estávamos nos tornando outros.
Certa vez, o fisioterapeuta Thiago Pires lembrou que o CRER funcionava numa área onde existira o antigo Adauto Botelho, hospital psiquiátrico de Goiânia.
Achei a explicação perfeita.
O prédio antigo podia ter desaparecido.
Mas o espírito da boa loucura permanecera por ali.
Hoje, tantos anos depois, quando puxo esses nomes da memória, eles já não chegam como personagens engraçados de uma crônica antiga.
Chegam como rostos.
Luiz.
Rodrigo.
João.
Messias.
Gustavo.
Gabriel.
Lindomar.
Euvaldo.
Negao Fortaleza.
Marlos
E tantos outros companheiros de naufrágio.
Alguns perdi de vista.
De outros talvez jamais volte a ter notícia.
Mas ainda consigo ouvir as gargalhadas no ginásio, o barulho da água na hidroterapia, as provocações, os apelidos, os passos inseguros de quem estava reaprendendo a atravessar o mundo.
Naquele tempo eu acreditava que estávamos todos tentando recuperar aquilo que havíamos perdido.
Hoje penso diferente.
Estávamos aprendendo a viver com aquilo que restara.
E restara muito.
Restara o riso.
Restara a amizade. Restara fiapos da despedaçada humanidade.
Restara a capacidade de fazer troça da própria desgraça.
Restara aquela estranha fraternidade que somente os feridos reconhecem uns nos outros.
Restara vida.
Agora, rescrevendo estas linhas, lembro dos velhos amigos.
E os olhos, que eu julgava secos, marejam.
Talvez porque a Confraria dos Estrupiados nunca tenha acabado de verdade.
Continuamos espalhados por aí, cada qual com suas cicatrizes, suas ausências, seus pedaços remendados.
Uns andando.
Outros sobre rodas.
Alguns mancando.
Todos, de algum modo, seguindo.
Porque entre nós havia uma regra que ninguém jamais precisou escrever:
podia faltar perna, braço, equilíbrio, força,fala, coordenação.
Só não podia faltar vontade de continuar.
Chico Kleber

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