O DIA EM QUE ME TORNEI UM ARGENTINO
Depois do segundo AVC, entre as tantas coisas que meu corpo desaprendeu, estava dirigir.
Passei então a depender diariamente de táxis para ir às sessões de fisioterapia no CRER-Centro de Recuperação e Reabilitação Dr.Henrique Santillo,cá em Goiânia.
Naquela época, minha fala também havia sofrido um pequeno terremoto. A língua parecia pesar dois quilos — uma massa pastosa, descoordenada, rebelde. Eu engolia vogais, atropelava consoantes, trocava masculino por feminino e, às vezes, parecia estrangeiro dentro da minha própria língua.
Numa dessas manhãs, o táxi parou diante de casa.
Entrei.
Com enorme esforço, anunciei o destino:
— Vamas ao Crer.
Saiu qualquer coisa entre o português e o sotaque de um alemão recém-desembarcado no Brasil.
Como falar exigia de mim uma operação de guerra, desejei ardentemente que o restante da viagem transcorresse em silêncio.
Mas meu motorista era gente fina.
E falante.
Muito falante.Falante demais.
Depois de algumas tentativas de conversa, encontrou o assunto universal dos brasileiros:
futebol.
Começou a meter o pau na seleção brasileira e, em determinado momento, decretou:
— Amigo, só existe um time capaz de perder para o Brasil mesmo estando ruim desse jeito: a Argentina. Quando vê a amarelinha, se borra toda de medo.
Não sei que espírito maluco me possuiu.
Respondi, com minha língua de dois quilos:
— Se o Brasil pegar a Argentina, leva uma goleada. No mínimo seis a zero.
O homem olhou para mim pelo retrovisor.
Prestou atenção na fala arrastada, nos olhos claros, na pele branca e perguntou:
— Jovem, você é estrangeiro?
— Por quê?
— Porque você tem sotaque e cara de argentino. Esse sotaque aí é de hermano.
Foi quando a fisioterapia perdeu um paciente por alguns minutos e o teatro ganhou um ator.
Segurei o riso.
— Sí. Soy argentino. De Rosario, provincia de Santa Fe. La tierra de Ernesto Che Guevara.
O motorista pensou um pouco.
— Che Guevara? Acho que já ouvi falar desse sujeito.
Pronto.
Ali percebi que minha recém-adquirida nacionalidade argentina estava a salvo.
Resolvi aprofundar a fraude.
Em um portunhol horroroso — ainda piorado pela língua rebelde — ataquei:
— Compadezco a este equipo de Brasil. Ustedes son horribles. Fregueses antiguos.
O homem se transformou.
— Fregueses são vocês! Nunca tiveram o esportista do século, como o nosso Pelé!
Eu já estava completamente entregue ao personagem.
— Pelé? Diego Maradona jugó un millón de veces más que Pelé. Y todavía tenemos Messi, el mejor del mundo.
Ele soltou uma risada de desprezo.
— Messi e Maradona? Dois porqueiras! Um abobado e o outro drogado. Só nós somos pentaaaaa!
Na mesma hora me veio à cabeça Galvão Bueno berrando nos Estados Unidos:
— É tetraaaa! É tetraaaa! É tetraaaa!
Quase perdi o personagem.
A conversa esquentava justamente quando avistamos o CRER.
Salvo pelo destino.
Paguei a corrida.
Antes que eu fechasse a porta, o motorista se despediu com a cordialidade de quem havia passado metade da viagem quase declarando guerra a uma nação vizinha:
— Vá com Deus, argentino!
Fez uma pequena pausa.
— E viva o Pelé!
Fechei a porta e fui para minha fisioterapia carregando secretamente uma frase de outro argentino, justamente aquele que meu motorista talvez já tivesse “ouvido falar”:
Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.
Naqueles tempos, eu ainda estava aprendendo uma coisa que demoraria anos para compreender inteiramente:
O AVC havia bagunçado minha fala, meu corpo, meus movimentos.
Mas não levara de mim a capacidade de rir.
Naquela manhã, por alguns quilômetros entre minha casa e o CRER, uma sequela virou sotaque.
O sotaque virou mentira.
A mentira virou Argentina.
E eu, que estava reaprendendo a habitar o próprio corpo, descobri que ainda podia inventar outro país para morar — nem que fosse apenas até o fim de uma corrida de táxi.
Chico Kleber

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