NOS ESCOMBROS DA TARDE
Chico Kleber
Perdido no lusco-fusco da paisagem,
procurei em minha face algum sentido,
escondido nos recônditos difusos
dos labirintos de tantos disfarces.
Nos escombros da tarde,
abracei a solidão
em mim colmatada no tempo e espaço.
Anunciava-se a chegada da noite,
seus sortilégios, bichos noturnos,
suas feras e linhagens.
Sob imenso cansaço,
deitei meu corpo inerte
na planície estranha
de loucas miragens.
E acordei, recompondo-me aos poucos,
movimento a movimento,
delirando na relva úmida,
pronto para novas viagens.
Há poemas que escrevemos para compreender a vida. Outros parecem antecipar aquilo que ainda não sabemos que nos acontecerá.
Escrevi esses versos em 17 de junho de 2025, dia em que fui submetido a uma delicadíssima cirurgia cerebral.
Naquela altura, já carregava as marcas de dois acidentes vasculares cerebrais, algumas sequelas motoras e uma intimidade absolutamente indesejável com hospitais, médicos e outras repartições da dor.
Mas o destino, esse sujeito de imaginação perversa, ainda guardava uma surpresa.
Tudo começou depois de uma tarde agradável na chácara de um amigo. Conversas revolucionárias, risadas, céu azul, aquela sensação de que a vida, apesar de seus tropeços, ainda sabia oferecer algum descanso.
Ao chegar em casa, senti minhas mãos se repuxarem involuntariamente.
Conhecia aquele movimento.
Era mais uma convulsão.
Uma velha conhecida que eu imaginava definitivamente aposentada.
Ouvi, então, uma voz interior, meio profética, meio debochada:
— Ei, Chico Kleber, prepara-te! Lá vem ferro outra vez, velho irmão predileto da dor!
Na manhã seguinte, acordei com dores de cabeça lancinantes. A vontade era arrancar a cabeça e lançá-la pela janela do apartamento.
Putz! Lá vinha outra desgraceira.
Os exames revelaram um extenso hematoma subdural: uma quantidade assustadora de sangue acumulada dentro do crânio, comprimindo meu cérebro. Quase um litro!
Quando meu neurocirurgião, Dr. Valter Costa, examinou as imagens, arregalou os olhos.
— Como você está conseguindo ficar em pé?
A pergunta não me pareceu particularmente animadora.
Havia tanto sangue naquela cabeça que, por um instante, imaginei carregar um verdadeiro barril clandestino dentro do crânio.
O médico não deixou margem para negociações.
Era preciso operar. Urgentemente. No dia seguinte.
Eu, que já sobrevivera a dois derrames cerebrais, teria agora de enfrentar uma craniotomia.
A morte, essa velha inconveniente, parecia ter adquirido uma assinatura vitalícia para frequentar minha existência.
E, para completar o surrealismo da situação, naquele mesmo dia e horário,meu Fluminense estreava no Mundial de Clubes contra o Borussia Dortmund.
Enquanto os jogadores se preparavam para enfrentar os alemães, eu me preparava, naquele mesmo momento, às onze horas da manhã, para enfrentar uma adversária infinitamente mais antiga.
O jogo estava zero a zero.
O meu, porém, não admitia empate.
Na sala de cirurgia, o medo resolveu assumir o comando.
Numa reação fortíssima de pânico pré-operatório, meu corpo enrijeceu de tal maneira que eu parecia um tamanduá acuado, um meleta do campo em posição de defesa.
Não conseguia sequer me sentar para receber a anestesia,fiquei em pé,travado.
O anestesista, Dr. Waldir, homem de uma delicadeza extraordinária, tentava me tranquilizar.
— Francisco, calma, querido. Assim não conseguiremos começar. Podemos perder sua cirurgia.
E, percebendo minha absoluta inexperiência com anestesia geral, resolveu brincar:
— Rapaz, você é especial, nunca fez nem uma operação de fimose e já vai estrear com uma cirurgia na cabeça!
Era a minha estreia de gala apavorada,
Sem tapete vermelho.
Com direito a serra, bisturi e uma plateia de neurocirurgiões.
Em algum momento, finalmente me entreguei à anestesia.
Foi então que comecei a experimentar sensações que ainda hoje não consigo explicar.
O mundo girava numa velocidade absurda. Sentia uma sede descomunal, como se todos os desertos do sertão houvessem se instalado dentro de mim.
Pedia água.Gritava por água.Berrava por água.
Pedia que parassem e me deixassem partir, pois a vertigem e a ânsia de vômito estavam me consumindo.
E, entre a consciência e o desconhecido, tive a estranha sensação de que algumas pessoas me puxavam pelos braços, querendo me levar, enquanto outras seguravam meus pés, impedindo minha partida.
Entre estas últimas, senti a presença de meu pai.
Não lhe vi o rosto.
Mas senti seu cheiro de Leite de Rosas, que costumava usar depois de se barbear.
Certas presenças dispensam apresentações, se sente.
Meu pai, Humberto, velho sertanejo sentimental, parecia decidido a não permitir que o filho abandonasse a festa antes do último acorde.
E fiquei.
Os neurocirurgiões Valter e Joaquim Costa trabalharam duro durante quatro horas para retirar aquela quantidade impressionante de sangue.
Foi preciso abrir uma extensa passagem no crânio para libertar meu cérebro da compressão.
Do lado de fora, o mundo continuava.
Do lado de dentro, eu ainda negociava minha permanência nele.
Quando acordei, trazia uma cicatriz na cabeça, os cabelos escangalhados e uma estranha sensação de haver atravessado uma fronteira.
A morte passara por mim, remexera minhas entranhas, bagunçara meus cabelos.
Mas esquecera de levar meu sorriso.
E, para seu desgosto, minha incurável vontade de continuar aprontando pelo mundo.
A recuperação surpreendeu até aos médicos e a mim.
Poucas horas depois da cirurgia, já estava em casa.
E algo ainda mais estranho começou a acontecer.
Meu pé esquerdo, antes completamente retorcido pelas sequelas dos antigos AVCs, parecia querer fazer as pazes com o chão.
As pernas ganharam uma leveza desconhecida.
O corpo rígido ensaiava uma metamorfose.
Eu me sentia como um girino descobrindo, de repente, que poderia transformar-se num sapo mais forte, mais atrevido e, naturalmente, muito mais estiloso.
Exatamente dois dias depois da cirurgia, um chamado interior me convidou a reencontrar a vida fora do apartamento, ver o sol, as árvores, os seres ainda viventes.
Resolvi caminhar pelo Parque Areião, em frente de casa.
E caminhei.
Caminhei quilômetros e quilômetros, sem perceber o cansaço.
Marquei no relógio: onze quilômetros. Quase três voltas em torno do extenso parque.
Havia em mim uma energia inexplicável, como se meu corpo tivesse regressado de algum lugar onde as leis da anatomia e da medicina não vigoravam.
Eu estava num mundo paralelo.
Foi então que, no meio do parque, apareceu aquela criatura.
Um cachorro perneta, meio felliniano, meio sertanejo, meio cósmico.
Faltava-lhe uma perna e sobrava-lhe movimento.
Corria numa felicidade desavergonhada, levantando poeira, zombando solenemente das limitações impostas pela anatomia, quase sorrindo para mim.
Aproximou-se, fitou-me nos olhos e começou a arranhar o chão com a única pata dianteira que lhe restava.
Uma pequena nuvem de poeira se levantou entre nós.
Parecia uma saudação.
Eu tinha acabado de escapar da morte.
Ele tinha perdido uma perna.
Nenhum dos dois parecia disposto a ficar parado.
Por um instante, tive a sensação de que nos reconhecíamos.
Dois bichos sobreviventes, dois pernetas convocados por alguma força invisível para aquele encontro improvável.
Não houve palavras.
Nem precisava.
Ele seguiu sua corrida.
Eu, a minha caminhada.
Voltei para casa tomado por uma alegria que não sabia onde guardar.
Coloquei algumas músicas para ouvir.
E então as notas começaram a ganhar cores.
As melodias se transformavam em imagens, formas e movimentos, como se uma orquestra invisível houvesse decidido pintar o ar.
Um baile sinestésico, que eu já experimentara depois do segundo AVC.
Eu, incorrigível nefelibata, viajante de universos paralelos, estava outra vez mergulhado naquela dimensão em que a música deixa de ser apenas som e passa a possuir corpo, cor e paisagem.
Dias depois, dia 2 de julho,na coragem e com um grande curativo na cabeça, embarquei para o litoral do meu Piauí.
Ali, na Pousada Teodora, na Praia do Macapá, outro acontecimento me deixou em estado de encantamento.
Do nada, os movimentos finos da mão esquerda, desaparecidos havia mais de uma década, começaram a regressar.
Meus dedos pareciam despertar de um sono antigo.
Abri e fechei a mão.
Fiz movimentos precisos de pinça, conseguindo apanhar objetos minúsculos entre os dedos, coisa que não fazia havia uma década.
Experimentei movimentos esquecidos.
E pensei imediatamente nos meus instrumentos musicais.
Nas cordas do violão e das guitarras.
Nos acordes interrompidos.
Na música que permanecera viva dentro de mim, apesar do silêncio imposto às minhas mãos.
Durante anos, eu me perguntara por que a vida me concedera o dom da música e, depois, retirara a possibilidade de executá-la.
Era como possuir um jardim inteiro dentro do peito e não conseguir abrir a porta.
Agora, de repente, a porta parecia destrancada.
Chorei compulsivamente por dentro, engolindo pesadas lágrimas.
Pronto, pensei.
Estou curado.
Imediatamente me lembrei de um verso de Alice Ruiz, poeta e companheira de Paulo Leminski, que me cabia como uma luva:
“A cada mil lágrimas sai um milagre.”
Depois de tanto sofrimento, tantas dores e choros, alguém finalmente havia se compadecido de mim e restituído os movimentos finos da mão esquerda.
Durante cinco dias, habitei essa felicidade quase inacreditável,delirante.
Ficava amontoando peças de xadrez e pedrinhas, equilibrando-as cuidadosamente umas sobre as outras, aguardando o momento de experimentar aqueles movimentos nas cordas de algum violão.
Todavia, no sexto dia, os movimentos finos começaram a desaparecer.
Sem despedidas.
Sem explicações.
Putz,alegria de manqueba dura pouco.
Meu neurologista aventou uma hipótese: talvez alguma ligação temporária entre circuitos cerebrais tivesse reacendido movimentos adormecidos em razão da forte convulsão que eu sofrera.
Uma espécie de restart que não conseguiu se sustentar.
Mas havia coisas que nenhuma explicação alcançava.
A presença de meu pai naquela travessia.
O cachorro de três patas correndo como se possuísse todas as pernas do mundo.
As cores sinestésicas que brotavam das músicas.
E aqueles cinco dias em que meus dedos reencontraram a memória dos acordes.
Não sei se tudo aquilo foi um milagre, uma coincidência extraordinária ou apenas mais uma das estranhas alquimias da existência.
Sei que aconteceu.De verdade.
E que, durante algum tempo, habitei um mundo onde o impossível parecia ter perdido sua autoridade.
Hoje, quando recordo aquela travessia, ainda vejo o pequeno animal olhando para mim, sorrindo, levantando poeira pelos caminhos do Parque Areião.
Ainda sinto meu pai segurando meus pés, decidido a me manter neste mundo.
E aquele cheiro familiar de Leite de Rosas, que ele exalava a nos beijar.
E ainda escuto, em algum lugar dentro de mim, os acordes que minhas mãos não conseguiram alcançar.
O milagre durou cinco dias.
Mas aquele cachorro perneta continua correndo,alhures.
E, nos escombros da tarde,
um violão agônico insiste em tocar.

Atenção: a fotografia a seguir contém uma imagem real domeu procedimento neurocirúrgico e pode causar desconforto.

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