CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

A MULHER QUE ARRANCOU O SILÊNCIO

A MULHER QUE ARRANCOU O SILÊNCIO

Chico Kleber

Ontem, aos 94 anos, minha mãe resolveu nos dar mais uma lição sobre os mistérios da existência.

Na semana passada, precisou extrair um dente que vinha lhe causando incômodo. Depois disso, mergulhou num estado de quase absoluta imobilidade. Deixou de se alimentar, parou de falar conosco e parecia ter se recolhido a algum lugar inacessível, nas profundezas de si mesma.

Mas seus olhinhos continuavam vivos.

Aqueles mesmos olhos que, durante uma vida inteira, souberam traduzir delicadeza, alegria, compaixão e uma inesgotável disposição para o humor.

Observava-nos em silêncio, como quem ainda tinha muito a dizer, mas não encontrava as palavras.

Depois de alguns dias no hospital, alimentando-se exclusivamente por uma sonda introduzida pelo nariz até o estômago, voltou para casa. Permanecia praticamente no mesmo estado, imóvel, silenciosa, distante das conversas e dos pequenos acontecimentos domésticos.

Já nos preparávamos para levá-la novamente ao hospital, onde seria realizado um procedimento cirurgico para permitir sua alimentação diretamente pelo estômago.

Foi então que, naquele início da noite de 1º de novembro, o inesperado aconteceu.

Minha mãe, num gesto súbito, com as próprias mãos, arrancou a sonda. Um ato de autonomia, de insubordinação, quase uma declaração de independência daquela mulher de 94 anos.

E, como se tivesse decidido romper um pacto involuntário com o silêncio, começou a falar, sorrir e cantarolar antigas canções.

De cara, para espanto geral, cantou Índia, trazendo de algum recanto da memória uma melodia que resistira ao tempo e aos seus labirintos.

Mas o melhor ainda estava por vir.

Eu e meus irmãos, conhecedores de seu espírito irreverente, resolvemos provocá-la com uma daquelas cantigas do besteirol popular nordestino:

— Ai, ai, cebola…

E ela, sorrindo com os olhos e agora também com os lábios inteiros, completava:

— Tempero de tabaco é rola!

Caímos todos na gargalhada.

Ali estava nossa mãe, inteira em sua irreverência, desafiando a solenidade da doença com a mais desavergonhada espontaneidade sertaneja.

Nem o Alzheimer, nem a sonda, nem os dias de silêncio haviam conseguido dinamitar seu espírito brincalhão, de leveza guerreira, de matriz felliniana.

Aquela cena me transportou imediatamente para uma experiência que vivi depois do meu primeiro acidente vascular cerebral.

Durante algum tempo, a afasia me sequestrara a língua materna. As palavras em português simplesmente não encontravam a saída. Curiosamente, depois de cerca de trinta dias, conseguia me comunicar em inglês, enquanto meu próprio idioma permanecia interditado.

Era como se o cérebro tivesse fechado uma porta e, por algum capricho de sua misteriosa arquitetura, deixado outra entreaberta.

Até que, certo dia, uma voz interior me sussurrou:

— Você está destravado!

Não sei de onde veio aquela certeza. Se era espiritual, científica ou metafísica. Sei apenas que acreditei nela.

Corri para o quarto de um dos meus filhos, apanhei seu violão e, desafiando minha própria condição afásica, resolvi cantar.

E cantei.

Não uma cantiga simples, dessas que a memória guarda em meia dúzia de versos.

Cantei Geni e o Zepelim, de Chico Buarque, inteira, com sua letra quilométrica, seus versos intrincados, suas palavras em vertigem.

Em português perfeito.

Eu, que até então tropeçava nas sílabas mais corriqueiras da minha língua, atravessara, cantando, uma das mais longas e desafiadoras narrativas musicais da nossa canção popular.

Ali, diante daquele violão, algo parecia ter se destravado.

Vieram o reencontro com a língua, a libertação dos tropeços fonéticos, os escorregões das consoantes, as palavras que pareciam ter desaprendido o caminho da boca.

E a música, mais uma vez, me oferecera uma passagem por onde a linguagem pôde regressar.

Talvez por isso a súbita recuperação da voz de minha mãe ontem tenha me comovido tanto.

Eu conhecia, de alguma maneira, aquela estranha travessia entre o silêncio e a palavra.

Ela, aos 94 anos, reencontrando antigas cantigas e safadezas sertanejas.

Eu, anos antes, agarrado a um violão, atravessando a longa história de Geni como quem atravessa um deserto à procura da própria voz.

Não sei explicar os mecanismos que produziram aqueles instantes. Tampouco pretendo transformar o espanto em explicação científica.

Sei apenas que, naquela noite, uma mulher de 94 anos, depois de dias mergulhada no silêncio, voltou a cantar, a sorrir e a fazer seus filhos gargalharem.

E que, entre uma guarânia romântica de origem paraguaia e uma safadeza nordestina, minha mãe nos devolveu algo que nenhuma sonda poderia alimentar:

A alegria indomesticável de continuar sendo quem sempre foi.

Mas havia algo mais naquela noite.

Ao vê-la regressar daquele silêncio, alguma coisa também despertou em mim.

Pensei nos movimentos finos de minha mão esquerda, perdidos nas curvas de minha própria história neurológica. Pensei naqueles cinco dias em que, depois de uma craniotomia, em 2023, meus dedos inesperadamente voltaram a obedecer aos meus desejos, como se reencontrassem caminhos esquecidos entre o cérebro e a delicada arquitetura dos movimentos.

Foram apenas cinco dias.

Depois, o silêncio voltou a habitar minha mão esquerda.

Mas nunca esqueci aquela breve insurreição dos dedos, aquela pequena liberdade que meu corpo me concedera antes de recolhê-la novamente.

E agora, diante de minha mãe, alguma coisa dentro de mim voltava a se iluminar.

Não sei se um dia aqueles movimentos retornarão. Não sei por quais caminhos, atalhos ou misteriosas veredas da existência.

Mas compreendi que aquela alegria indomesticável, que nenhuma doença conseguira arrancar de minha mãe, também havia encontrado um caminho até mim.

Aos 94 anos, ela não recuperara apenas a voz e a capacidade de se alimentar. Sem saber, fizera renascer no filho algo que os anos de limitações e incertezas haviam deixado adormecido.

Não eram ainda os dedos.

Era a esperança.

E a esperança não precisa de uma promessa de milagre para continuar existindo.

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