CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

O BACILO DE KOCH E AS DUAS PITUS

O BACILO DE KOCH E AS DUAS PITÚS

Uma história de amor, tuberculose e aguardente no sertão piauiense

Chico Kleber

Minha família, tanto paterna quanto materna, tem suas raízes fincadas no sertão bravo de São João do Piauí, terra de poetas, músicos, contadores de histórias e personagens que parecem ter escapado das páginas do realismo mágico.

Por aquelas bandas, as histórias atravessam gerações pela tradição oral, passando de pai para filho, entre gargalhadas, saudades e alguma dose de exagero sertanejo.

Esta me foi contada por meu pai.

Ele tinha um primo muito querido, José Ferreira da Silva, conhecido por todos como Gordo. Eram mais que primos: irmãos de afeto e cumplicidade.

O Gordo Ze Silva era uma dessas criaturas que iluminavam qualquer ambiente. Quando sorria, todo aquele corpanzil acompanhava a gargalhada, como se o próprio corpo estivesse dando um abraço no mundo.

Desde menino, ele me chamava carinhosamente de Poquito.

O apelido vinha de um espanhol de cabelos louros e olhos azuis que vivera em São João do Piauí e, quando entrava nos armazéns para comprar alguma coisa, sempre pedia:

— Por favor, um feijão-de-corda, mas só um poquito!

A cidade inteira passou a chamá-lo de Seu Poquito. Por minha semelhança física com o espanhol, herdei o apelido. E o Gordo , até a sua despedida, nunca mais deixou de me chamar assim.

Zé Silva era trabalhador incansável, empreendedor por natureza e aventureiro por vocação.

Ainda jovem, comprou um caminhão Ford de carroceria e começou a transportar retirantes nordestinos para São Paulo, naquele tempo em que a esperança viajava espremida nos paus-de-arara.

Eram homens, mulheres e crianças fugindo da seca, da fome e da miséria, levando na bagagem quase nada, além do sonho de encontrar uma vida menos amarga.

As viagens eram intermináveis. Estradas de terra, poeira, vilarejos esquecidos, igrejinhas solitárias, cemitérios abandonados, armazéns com rapadura, farinha de puba e água salobra guardada em potes de barro.

Era um Brasil que atravessava outro Brasil, na raça, na coragem e na esperança de chegar à quase inatingível Sum Paulo.

O Gordo, ainda solteiro, bonitão, cheio de energia e apreciador confesso de um belo par de saias, não perdia oportunidade de exercitar seus talentos amorosos.

Numa dessas viagens, parou em um pequeno povoado para recolher duas passageiras: uma senhora de meia-idade e uma jovem cabocla de beleza estonteante.

A moça tinha cabelos negros e lisos;como asas de graúna, pele morena, dentes alvos e um vestido de chita que desenhava sua silhueta.

Era uma Vênus de Milo extraviada no sertão.

O Gordo ficou embasbacado.

Mal as passageiras subiram na carroceria, entregou a direção ao ajudante:

— Assuma a boleia, rapaz, que vou tomar um arzinho lá atrás. Aqui dentro tá quente demais!

E lá se foi o nosso herói, com o sangue fervendo e o coração disparado.

Sentou-se ao lado da cabocla. Vieram os olhares, os sorrisos, os primeiros gracejos.

Em pouco tempo, os dois se beijavam apaixonadamente, embalados pelo sacolejo do caminhão e pelo luar que começava a derramar sua claridade sobre a caatinga.

O ajudante precisou chamá-lo algumas vezes para socorrê-lo na direção.

Mas o Gordo, enfeitiçado, sempre encontrava um pretexto para voltar à carroceria.

Até que, depois de mais uma sessão de beijos intermináveis, resolveu perguntar:

— Me diga uma coisa, minha flor. Uma moça tão linda e tão jovem, indo assim para tão longe… O que vai fazer em São Paulo?

A cabocla respondeu com a maior naturalidade e absoluta sinceridade:

— Vou me tratar de uma tuberculose que peguei.

O mundo parou.

O luar perdeu o encanto.

A Vênus de Milo virou um pesadelo bacteriológico.

O Gordo, apavorado, desceu da carroceria numa velocidade incompatível com seu avantajado porte físico.

Invadiu a boleia e ordenou ao ajudante:

— RAPAZ, PARE NA PRIMEIRA BODEGA QUE ENCONTRAR! AGORA!

Depois de alguns quilômetros, avistaram um armazém perdido na poeira do sertão.

O Gordo entrou feito um condenado à procura de absolvição.

— Meu senhor, pelo amor de Deus, me arranje um litro de álcool e duas garrafas de Pitú!

Saiu com sua farmácia de emergência.

Primeiro, começou a gargarejar o álcool, repetindo a operação com a obstinação de quem pretendia expulsar o bacilo de Koch pela força bruta.

Depois, passou à segunda etapa do tratamento.

Destampou as duas garrafas de Pitú e mandou a aguardente goela abaixo, no gargalo mesmo, sem cerimônia, como quem combatia uma invasão de microrganismos com artilharia pesada.

Era a medicina alternativa do desespero sertanejo.

E assim, entre gargarejos, goles e imprecações, o Gordo declarou guerra à tuberculose.

O tempo passou.

Zé Silva prosperou, tornou-se um grandee rico empresário do transporte coletivo, proprietário de dezenas de ônibus e de uma das maiores empresas do setor na Capital, Teresina.

Viveu muitos anos, espalhando alegria, generosidade e aquele sorriso que parecia não caber no próprio rosto.

E, segundo a versão familiar da história, jamais contraiu tuberculose.

Se foi sorte, destino ou proteção divina, ninguém sabe. Mas, na mitologia particular do Gordo, o bacilo de Koch não teria resistido ao bombardeio avassalador das duas empoeiradas Pitús daquela bodega escondida nos caminhos mágicos do sertão

Quanto à bela cabocla, nunca mais se soube de seu destino.

Talvez tenha chegado a São Paulo, encontrado tratamento, refeito a vida e envelhecido com muitos sonhos em algum lugar distante .

Talvez nem imaginasse que aqueles beijos, trocados sob o luar do sertão, atravessariam décadas e continuariam provocando gargalhadas.

O Gordo também partiu.

Mas ainda consigo vê-lo chegando, sorridente, os olhos vivos, aquele corpanzil inteiro sacudido pela alegria, batendo generosamente as mãos em minhas costas:

— E aí, Poquito!

E eu, menino outra vez, recebendo aquele abraço que parecia não ter fim.

Porque existem pessoas que, mesmo depois de partir, continuam chegando.

E o Gordo, com seu sorriso imenso, ainda chega de vez em quando, atravessando as estradas empoeiradas da minha memória.

Um abraço intergaláctico, primo Zé Silva, onde quer que estejas.

Com saudades,

Do teu primo Poquito.

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