1976.
A minúscula e onírica São João do Piauí mais se assemelhava a uma aldeia encravada no sertãozão. Como toda boa aldeia que se prezasse, possuía uma bela praça, onde parte da população ostentava sua vontade de ser moderna: garotos e garotas de calças boca de sino, tamancões de madeira, cabelos longos e camisetas curtas e coladas ao corpo — Waikiki, Hang Loose —, deixando o umbigo à mostra.
A contracultura hippie convivia pacificamente com a elegante presença dos sertanejos, os mateiros, que atravessavam a cidade a cavalo, altaneiros, vestidos a rigor: gibão, chapéu de couro, luvas, guarda-pés e sapatos de bico estreito.
Era uma alucinante explosão de cores, sons e aromas naquele pedaço de sertão.
Dos alto-falantes estrategicamente pendurados em árvores, casas e até na igreja saía muita música nordestina. Mas naquele ano um furacão loiro da guitarra também invadia o mundo: Peter Frampton, então com 25 anos, lançava Frampton Comes Alive!, que se tornaria um fenômeno mundial.
São João guardava em seu magma uma vocação inabalável para acolher o novo, para ser, como se dizia na gíria da época, prafrentex.
E não é que até o sertão se rendeu ao menino Frampton?
Baby, I Love Your Way e Show Me the Way podiam ser ouvidas sob o céu escarlate do sertão com a mesma naturalidade com que se ouviam Gonzagão, Alceu, Ednardo, Fagner e outros nordestinos da gema.
Talvez tenha começado ali minha predileção pela guitarra, instrumento que logo adiante eu também escolheria para fazer algum barulho no mundo.
Como as férias escolares duravam três meses, eu seguia para São João e passava esse tempo na casa de meus avós.
Foi numa dessas férias que, numa quarta-feira, um novo mundo chegou para mim debaixo de uma lona.
Aportava na cidade o mambembe Circo Estrela de Ouro.
Para anunciar o espetáculo, a trupe tomava as ruas: malabaristas, trapezistas, dançarinas, pernas-de-pau, pequenos macacos e outros habitantes daquele universo errante desfilavam pela cidade. Atrás deles vinha uma multidão, principalmente de crianças, engrossando o coro.
Eu me atirava no meio da meninada, sorrindo de dente a dente:
— Hoje tem espetáculo?
— Tem, sim senhor!
— Hoje tem marmelada?
— Tem, sim senhor!
— Hoje tem goiabada?
— Tem, sim senhor!
— E o palhaço, o que é?
— É ladrão de mulher!
Eu vou ali,eu volto já, eu vou comer maracujá
Eu já desconfiava, naquela idade, que havia alguma tristeza escondida atrás da pintura dos palhaços. Não sei de onde me vinha aquilo.
Mas uma coisa me perturbava ainda mais.
Enquanto todo mundo berrava, feliz da vida, que o palhaço era ladrão de mulher, eu seguia no meio da meninada pensando com meus botões:
Coitado desse homem. Além de palhaço, ainda é ladrão de mulher…
Aquilo me parecia uma injustiça enorme.
Os meninos que acompanhavam a trupe na “propaganda” até o final da tarde ganhavam do pessoal do circo um carimbo na mão, que lhes garantia entrada gratuita naquela noite.
Era um pequeno passaporte para outro mundo.
Sem aqueles carimbos salvadores, certamente muitos acabariam furando a lona para assistir ao espetáculo. A maioria era muito pobre, e o preço de um ingresso, por menor que fosse, podia fazer falta no parco orçamento de suas famílias.
Eu, carimbo conquistado, saí correndo para a casa dos meus avós maternos. Passara o dia inteiro debaixo de um sol escaldante e precisava tomar um bom banho. Afinal, tinha de estar bonito e cheiroso para a grande noite de estreia.
Foi quando me ocorreu uma tragédia:
Xiiii… E se o banho apagar o carimbo?
Pronto.
O banho, que deveria apenas tirar a poeira e o suor do dia, transformou-se numa delicadíssima operação: era preciso lavar o menino inteiro sem lavar a mão.
Tenho certeza de que, naquela tarde, dezenas de crianças de São João do Piauí tomaram banho com uma das mãos erguida para o céu, protegendo o precioso carimbo como quem protegia um bilhete premiado.
Afinal, ninguém atravessava um dia inteiro debaixo do sol para perder, por causa de um sabonete, o direito de entrar no Circo Estrela de Ouro.
Naquela noite, porém, mal começara o espetáculo e meu coração encontrou outra atração.
Uma das ajudantes de palco era uma garota que deveria ter minha idade ou ser um pouco mais velha, talvez treze ou catorze anos. Era linda. Tinha olhos amendoados, grandes e expressivos, que imediatamente me provocaram uma aflição diferente.
Pronto.
Acabara o circo para mim.
Não liguei mais para trapezista, palhaço, malabarista ou macaco. Queria saber quem era aquela menina, de onde vinha, como se chamava — qualquer coisa que me permitisse chegar um pouco mais perto dela.
Voltei levitando para a casa dos meus avós.
Naquela mesma noite sonhei que a raptava do circo para namorar comigo.
Minha primeira paixão circense de verão.
Na manhã seguinte, porém, chegaram novidades do front circense.
Um dos proprietários do Estrela de Ouro precisava de uma casa para alojar a família. Meu pai possuía um imóvel na cidade onde morava meu querido tio materno, o saudoso e sempre bem informado professor Juraci de Souza Paulo. Por uma dessas coincidências que parecem arranjadas por algum roteirista, meu tio acabava de concluir sua própria casa e o imóvel ficara desocupado justamente naquela semana.
Um senhor de vasto bigode apareceu na casa de meus avós interessado no aluguel.
Negócio fechado.
Pensei imediatamente:
Isso pode estreitar meu caminho até aqueles olhos amendoados.
Nas férias, a casa de meus avós vivia apinhada de primos e primas vindos de todos os cantos — Rio, Salvador, Teresina, Goiânia.
Meu pai combinou com o locatário que enviaria um bilhete com os nomes dos familiares autorizados a entrar gratuitamente no circo, e os ingressos seriam descontados do aluguel. Destacou meu primo Jorge Elias como nosso emissário oficial, encarregado de conduzir a tropa e apresentar o precioso salvo-conduto na entrada.
Estávamos feitos.
Foi então que, logo pela manhã, um carro de som mequetrefe e mambembe começou a percorrer as ruas. O locutor, com a voz empostada, berrava:
— É hoje! É hoje! Não percam! Nesta noite, o extraordinário espetáculo: O HOMEM QUE VIRA CACHORRO!
A notícia produziu um alvoroço.
Como assim? Um homem que vira cachorro?
A inocência sertaneja fez o resto.
Naquela noite, parecia que São João inteira se dirigia ao Estrela de Ouro para presenciar o milagre da transmutação.
Fomos também: Jorge e seus asseclas.
A expectativa era tamanha que, por alguns instantes, confesso, até esqueci a garota dos olhos amendoados.
Meu primo Jorge, bom de conversa, já fizera amizade nos bastidores com praticamente toda a trupe, sobretudo com o principal palhaço, Arrelia. Logo me senti importante naquela multidão quando, no meio de suas gaiatices, o palhaço levantou a gravata e gritou do picadeiro:
— Jooorgeee! Jooorgeee! Você está aí, bonitão?
Aquilo me encheu de orgulho.
É hoje. Vou ver um homem virar cachorro e ainda posso finalmente conhecer minha musa.
Mas o tempo não passava.
A cada número, o locutor aumentava o suplício:
— Está chegando a hora! Daqui a pouco, a atração mais esperada da noite: O HOMEM QUE VIRA CACHORROOOO!
Finalmente chegou a hora.
Entrou no picadeiro um cabra musculoso, cabeludo.
A plateia explodiu:
— Ooooooh!
Era ele.
O homem que virava cachorro.
O sujeito fez uma pequena apresentação, saiu do picadeiro e, segundos depois, voltou trazendo nos braços um vira-lata malhado de preto e branco, parecido com aqueles cachorros dos filmes de Chaplin.
Colocou o bichinho no chão.
A plateia silenciou.
Então apontou o dedo para o animal e ordenou:
— Vira, cachorro! Viraaaaa!
O cachorro virou.
Por alguns segundos, São João do Piauí ficou em silêncio.
Depois, quase houve um linchamento.
A molecada e alguns dos homens mais valentes da cidade começaram a se reunir:
— Vamos dar uma sova nesse fela para ele aprender a respeitar São João!
A revolta se espalhou pela boca miúda. Uma pequena multidão enfurecida ficou do lado de fora esperando o artista que ousara ludibriar a cidade inteira com tamanha vigarice gramatical.
O pessoal do circo percebeu que a coisa era séria.
Para salvar o fortão, colocaram-lhe uma peruca feminina, um vestido e o fizeram escapar disfarçado no meio da confusão.
Funcionou.
E assim terminou a mais extraordinária metamorfose daquela noite:
o homem que não virou cachorro precisou virar mulher para salvar o couro.
Dois dias depois do fatídico episódio do cachorro, o Circo Estrela de Ouro começou a ser desmontado.
A lona desceu.
E, com ela, pareceu desabar um mundo inteiro.
Partiram os palhaços, os trapezistas, os malabaristas, os pequenos macacos, as luzes, a música e todas as ilusões e fantasias que, por alguns dias, haviam se agasalhado debaixo daquela lona.
O encanto levantou acampamento.
São João voltou a ser São João.
No terreno ficaram apenas as marcas das estacas e a serragem pisada, como se a felicidade, antes de partir, deixasse provas de que realmente estivera ali.
Eu ainda não conhecia a palavra impermanência. Só sabia que, onde na véspera havia luz, música e encantamento, agora havia um terreno vazio.
E que, em alguma daquelas camionetas, seguiam também os olhos amendoados da menina cujo nome jamais soube.
Minha primeira paixão circense de verão partia sem sequer saber que havia sido minha primeira paixão circense de verão.
Talvez tenha sido uma das primeiras vezes em que percebi, ainda menino, que certas coisas chegam à nossa vida apenas para nos deslumbrar — e partir.
Mas algumas vão embora apenas do lugar.
Ficam dentro da gente.
A lona do Circo Estrela de Ouro foi desmontada naquele verão de 1976.
Cinquenta anos depois, descubro que ela continuava armada em algum lugar da minha memória.
Chico Kleber

Deixe um comentário