Chico Kleber

O ano era 1974.
No sertão piauiense, a seca não era notícia. Era paisagem. Terra dura, água pouca, casas pobres e uma dignidade que não precisava de retrato na parede. Percebia-se logo no primeiro olhar, nas retinas quase tristes e, ainda assim, esperançosas daquela brava gente brasileira.
Fomos visitar a velha e humilde casa onde meu pai nascera, na Baixa do Caixé, município de São João do Piauí.
Ali, naquele pedaço mágico e escondido de mundo, começava uma parte de nossa ancestralidade. Mas começava com uma ausência: sua mãe morrera no parto que o trouxe à vida.
Por obra sagrada do destino, porém, meu pai recebera o abrigo e o amor desmedido de sua tia, de nome libertário e afetuoso — Liberalina, irmã de seu pai — e de seu esposo, o bem-humorado e risonho Modesto Paulino de Oliveira, que adorava jogar dominó sozinho e tinha um cavalo que era meu preferido: o Peneirinha.
Meu pai voltava, agora homem e com os filhos, ao lugar onde recebera, ao mesmo tempo, a vida e a primeira grande perda.
Eu era menino. E menino não entende essas coisas por inteiro.
Menino corre.
Menino inventa.
Menino entra em tanque quase seco.
Entrei.
O tanque era uma das poucas referências de água para o consumo das pessoas e dos animais naquele lugar quase desértico.
A água era pouca, barrenta, cercada pela secura. Quando saí, descobri que não estava sozinho. Uma dezena de sanguessugas havia se apossado da minha barriga.
Lembro-me de puxá-las.
Uma a uma.
E lembro do sangue escorrendo.
Não sei se chorei. Achei tudo inusitado, sobrenatural, estranho. Algumas lembranças guardam a imagem e apagam o som. Outras fazem o contrário.
Naquela mesma semana, veio André, um sanfoneiro conhecido da região.
Chegou para tocar na casa, como um gesto de acolhimento ao filho daquela terra que regressava, vindo do longínquo Goiás, com seus próprios filhos.
Não havia palco, refletores ou caixas de som.
Havia um candeeiro.
E havia uma sanfona.
Sob aquela luz pequena, cercada de sombras moventes que eu via dançar, André abriu o fole e o sertão pareceu respirar diferente.
Meu pai escutava.
Talvez escutasse mais do que música.
Talvez, por trás da sanfona, ouvisse uma mãe que nunca conheceu, o choro de seu próprio nascimento, vozes antigas escondidas nas paredes daquela vetusta, pobre e acolhedora casa.
Eu não sabia de nada disso.
Era apenas um menino que, poucos dias antes, arrancara sanguessugas da barriga e vira o próprio sangue correr.
Hoje penso que naquela semana conheci, sem saber, duas forças do sertão.
Uma se agarrava à carne.
A outra, à memória.
As sanguessugas larguei no chão.
A sanfona de André, não.
Cinquenta e dois anos depois, ainda escuto o fole resfolegando sob a luz do candeeiro.
Parecia que o mundo inteiro estava ali.
Inteirinho.
Em minhas mãos.
E ainda hoje, quando relembro de meu pai e da água que faltava àquela terra, marejam meus olhos secos.
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