
(à geração mimeógrafo)
Gira a manivela:
o verso nasce úmido, azul de álcool,
e mancha os dedos de quem escreve em silêncio,
sem abrigo,ao relento..
É poesia de balcão, entregue baixa,
como fósforo aceso num dia de vento.
Não me fales em mármore, estátua parnasiana,
versinhos limpinhos, docinhos.
Tenho pavor da imortalidade das bibliotecas.
Minha métrica é o asfalto quente, o último vagão,
o agora que já escorreu para ontem.
Escrevo para assaltar o instante
e largá-lo tremendo na palma da tua mão.
Ei, Bicho, distribui meus versos
aos loucos dos bares, das ruas,
aos viramundos virados dos dias e das noites.
Não arquives.
O papel é corpo breve: arde ao sol,
se perde nas frestas das bocas de lobo
das cidades apressadas e sem alma,
sobrevive apenas no gesto.
O que fica é o pulso, o susto,
a prova mínima de que estivemos vivos
antes que a manivela — cansada —
silencie tristemente em algum porão lúgubre,
em alguma escada abandonada.
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