Poema em Estado de Risco

(Em memória de Torquato Neto)
“Eu sou como eu sou,
pronome pessoal intransferível.”
— Torquato Neto
Em minhas peregrinações existenciais,
no meu estado bruto de poesia,
vivo em constante ebulição:
deliro em paralelismos mágicos,
inteiro entregue à sinestesia.
Vejo-me chama
que se desdobra em cores,
silêncio
que canta pelas avenidas de Teresina,
Tempo
que se curva em espirais,
cajuína,
corpo — anjo torto —
que plana leve em luz e gás
em plena
e louca
travessia.
E, quando me perco
em universos paralelos,
reencontro-me
no infinito da palavra:
cais dos meus enredos,
matriz dos meus sonhos,
revelação dos meus mais íntimos segredos,
eco que ressoa
nas frestas do tempo
como bálsamo,
como brisa,
alento.
Então, rodopio —
bailarino de caixinha de música —
num maluco
labirinto
de símbolos
onde me reinvento,
dançando por entre espirais
e castiçais de música e vento,
murmurando palavras
que se abrem
em pétalas e aromas
do mais ensurdecedor silêncio.
E, nesse instante,
o universo inteiro se recria.
Não mais adormeço em vão:
deliro desperto,
suavemente,
ecoando
minha doce dor e polissemia:
mente… mente… mente.
poesia…
poesia…
poesia…(Chico Kleber)
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