CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

NINHO DE VAGALUMES

“Há uma luz que não vem do sol.”
— Rainer Maria Rilke

Uma coisa é certa, intangível, meu irmão:
em ninho de vagalumes
a noite esquece seus gritos e desatinos.

A penumbra não se impõe, nem se atreve;
não viceja a escuridão.

Em ninho de vagalumes
o tempo se dobra em silêncio,
e cada lampejo é um segredo antigo
guardado nas asas do instante,
na magia faceira e mandingueira do pirilampo.

Meu irmão,
em ninho de vagalumes o mundo se recolhe
em paz breve,
como se o universo respirasse devagar.

E mesmo que a noite volte
com seus tambores e trevas,
aqui a alma acende
sua própria alvorada voraz.

Em ninho de vagalumes,
cada lampejo é revelação:
a alma se desnuda, leve e plena,
e logo se transmuta — louco coração.

Meu irmão, se a tormenta se anunciar,
que tua lembrança seja esse lugar.

Em ninho de vagalumes….

Chico Kleber

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