PÓSTUMO (De Profundis)
“O que sou é feito de abismos.”
— Hilda Hilst
Meus sonhos não cabem neste mundo.
Já me sinto póstumo — de profundis.
Como quem nasceu depois do próprio fim,
sou um eco de alma deslocado,
sem lugar no tempo ou no espaço.
Carrego entardeceres desnorteados
que nunca amanhecem,
ideais que o frio concreto não comporta.
Sou feito de matéria sensível,
insubmissa à lógica das horas mortas,
vazias, vadias.
Falo com estrelas que não respondem,
abraço silêncios que não me consolam,
e mesmo assim insisto em existir —
como quem desafia o esquecimento.
Não sou inteiramente tristeza:
sou excesso de céu,
o grito que não coube no verso,
o amor que não aceita moldura,
o poema que rasga o universo ao léu.
Já sou póstumo —
espectro errante sem morada,
carregando auroras abortadas,
feito de matéria indomável
à tirania do tempo.
E assim permaneço:
não contra a morte,
mas apesar dela ,
vagando nas profundezas
da minha própria fantasia e sorte
Chico Kleber

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