CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

DENTES DE VIDRO

As luzes da minha cidade

não alcançam as estrelas.

Mas lá de cima,

elas nos observam —

com pena, com curiosidade tremenda, tentando compreender

a razão de toda aquela luminosidade brasileira,

Tao faceira, difusa, desordenada,

que se espalha em brilhos frágeis,

tentando preencher vazios, rastilhos,

esquadros que nem a noite reconhece de fato.

Se é flash, é outdoor, é foto,

carro, moto, farol aceso.

Um mosaico inquieto, embaçado,espesso,

um clarão breve,

que insiste em competir

com o silêncio do céu.

Mas as estrelas, argutas como argonautas,

sabem que não há disputa:

elas brilham eternas,

enquanto nós e a cidade, aqui embaixo,

seguimos acendendo lampejos,

nossos dentes de vidro em relevo,

para não nos perder na escuridão dos frágeis astros,

aqui embaixo, no chão desfeito.

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