CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

MATÉRIA REMANESCENTE

Somos feitos do que sobrou.
Das cinzas etéreas.
Dos dias compridos, quase eternos.
Dos renascimentos.
Das fogueiras reacendidas quando as brasas pareciam vencidas.

Somos feitos do pó antigo
que o vento não levou.

Com ele moldamos a arquitetura do agora:
enxertos de terra,
estilhaços de luz,
a teimosa carne
que aprendeu a durar,
a se autocurar
em conversas silenciosas com as próprias células,
travando duríssimos diálogos
de louca sobrevivência.

Descobrimos que a vida,
mesmo ferida,
guarda um estranho ofício:
o de recomeçar.

E do fogo que restou,
refazemos os dias.

Com fé na vida.
No abraço dos amigos.
Na música.
Na poesia.

Porque, no fim,
não somos feitos do que perdemos.

Somos feitos daquilo que permaneceu.

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