“Carrego
uma catedral em ruínas
que insiste em cantar.”
— Chico Kleber
Sou
barroco —
barroco expressivo,
lírico compulsivo,
insubmisso à geometria do mundo.
Entregue
à errância alucinatória,
atravesso corredores da memória
como quem incendeia arquivos do tempo
e navega, febril,
por constelações de lembranças
e abismos.
Sou
mármore vivo
que reluz nas catedrais do desejo
e do medo —
arquitetura febril
onde ecos e sombras
rezam em latim
sobre meus excessos, degredos, segredos.
Barroco
que não sabe ser contido.
Se a vida
é silêncio,
sou a festa das cores,
procissão delirante de metáforas, ladainhas,
estupor extraviado nas dobras do tempo,
ferido pelas dores —
de todas as Doras,
de todas as Dolores
que a história deixou sangrando
nos corredores da alma.
Navego
nos mares convulsos
de uma mente em chamas.
Ali,
tempestades pensam,
relâmpagos escrevem,
e a linguagem se levanta
como catedral incendiada.
A veia
lírica —
oceano sem margens —
é minha única certeza.
Pois fora
do verso
não encontro abrigo.
Só no
poema
consigo existir comigo,
dialogar com meus fantasmas,
acender estrelas na ruína,
e invocar —
como quem sopra brasas
no escuro do mundo —
a secreta arte
de apagar
todas as tristezas,
todos os castigos.


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