PASSAGEIROS DA NOITE DESCABELADA
O Itapemirim das Almas Extraviadas
Chico Kleber
No ônibus Itapemirim
amarelo da noite,
o motorista dormia
dentro de um espelho,
que refletia
e adentrava a estrada insone,
com janelas azuis
escancaradas pela lua cheia,
rumo ao desfacelamento
da madrugada.
No caminho,
algumas paradas.
E foram embarcando
novos passageiros,
criaturas da noite descabelada.
Subiram o urutau,
mãe-da-lua,
a suindara,
rasga-mortalha,
o bacurau
e o jacurutu,
entoando cantos
repletos de mistérios,
mágicas
e sortilégios sertanejos.
Mais adiante,
subiram Cumpade Joca,Poroca,
Miltão da Sanfona,
Cadinha,
Bada
e Lapa,
habitantes da velha
Baixa do Caixé, onde meu pai nasceu.
Pelas janelas azuis
refletiam-se as sombras
dos velhos juazeiros,
mandacarus,
xique-xiques,
e a velha
e conhecida esperança
que brotava
nas raízes das figueiras
do inconsciente
daquele lugar.

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