CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

ATRITO

ATRITO

Andar descalço em caco de vidro,
pra me sentir incomodado,
me sentir vivo.

Cansei da maciez dos tapetes,
dos caminhos acolchoados,
das certezas sem perigo.

Quero a pedra,
a quina,
o espinho,
a farpa clandestina,

a espasticidade
comprimindo tendões e músculos
pelo caminho.

Quero alguma coisa
que me desarrume o passo,
me obrigue ao tropeço,
me devolva o susto
de não saber o chão
que não meço.

Não quero a dor pela dor.

Quero o atrito.

A pequena rebelião da pele
contra a anestesia dos dias.

Eu preciso ouvir
alguma coisa em mim
quebrando o silêncio.

Ainda que sangre
uma antiga versão do Chico

Andar descalço,
sim —

mas sobre os cacos
dos espelhos
onde já não me reconheço.

E descobrir,
entre um corte e outro,

que ainda há sangue,
ainda há espanto,

espasmo.

Ainda há alguém
batendo vivo aqui dentro.

Chico Kleber

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