ATRITO
Andar descalço em caco de vidro,
pra me sentir incomodado,
me sentir vivo.
Cansei da maciez dos tapetes,
dos caminhos acolchoados,
das certezas sem perigo.
Quero a pedra,
a quina,
o espinho,
a farpa clandestina,
a espasticidade
comprimindo tendões e músculos
pelo caminho.
Quero alguma coisa
que me desarrume o passo,
me obrigue ao tropeço,
me devolva o susto
de não saber o chão
que não meço.
Não quero a dor pela dor.
Quero o atrito.
A pequena rebelião da pele
contra a anestesia dos dias.
Eu preciso ouvir
alguma coisa em mim
quebrando o silêncio.
Ainda que sangre
uma antiga versão do Chico
Andar descalço,
sim —
mas sobre os cacos
dos espelhos
onde já não me reconheço.
E descobrir,
entre um corte e outro,
que ainda há sangue,
ainda há espanto,
espasmo.
Ainda há alguém
batendo vivo aqui dentro.
Chico Kleber

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