CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

PARA TOCAR SEM SANGRAR

PARA TOCAR SEM SANGRAR

“Uma lata existe para conter algo,
mas quando o poeta diz ‘lata’,
pode estar querendo dizer o incontível.”
— Gilberto Gil

Há sempre
uma metáfora no que escrevo,

como se as palavras vestissem disfarces,
fantasias liquefeitas,
e cada verso fosse um espelho partido —
moído —
refletindo verdades em fragmentos
suaves ou espessos.

Escrevo
sertão e mares para falar de saudade.

Desenho luas quando quero puro silêncio,
um pássaro em voo
quando desejo partir sem destino,
passeando, poetando
por meus íntimos e avessos.

Mas há
também um silêncio oculto entre meus versos:
um intervalo onde o sentido se esconde,
como quem respira fundo antes do mergulho,
como quem hesita
diante da própria penumbra.

Há sempre
uma metáfora no que escrevo,
porque o real me fere com pontas agudas
e só o simbólico me permite tocar,
sem sangrar,

meus idílios, dores, sorrisos e desejos
mais profundos:

desaparecer,
submergir,
ir ao fundo, subverter
evaporar, no escuro e claro desse mundo.

Há sempre  uma metáfora no que escrevo.

Chico Kleber


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