CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

MEU PEQUENO GIGANTE PAI

“A saudade é um modo de permanecer.”
— Carlos Drummond de Andrade

(A meu pai Humberto Vaz Paes Landim — 01.02.1928 · 14.11.2023)

Meu pequeno grande pai,
proustiano de alegorias,
guardião de vastas memórias,
recriava, em nossa presença,
mundos perdidos e tempos vividos,
na esperança de eternizá-los
— brilhantes, cintilantes —
na solidão dos astros
que vagavam pelas noites silenciosas
de seu onipresente sertão.

Meu pequenino gigante pai,
drummondiano de afeto,
lírico de ritmo próprio,
vivia em compasso descompassado
com as dores e alegrias
de seu agridoce coração.

Woodyaleano de expressão,
sorria de si mesmo
para disfarçar os desenganos.
A boa sacada, a gargalhada,
recriavam pontes
entre caatingas esturricadas,
lagoas de sapos
e altiplanos imaginários.

Meu pai, bom velhinho,
nunca abandonou
a criança descalça
radicada em suas entranhas.

E no fim, quase sorrindo,
num calmo suspiro,
como um guri feliz,
escapou mansamente
de nossa presença —
como um pássaro
em busca de um novo ninho,
um novo abrigo
na imensidão;
meu pequeno gigante pai, saudades de seus afetos,
sorrisos e canções.

__ Chico Kleber

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