CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

ILUSÕES MAQUINAIS

ILUSÕES MAQUINAIS

Se perder para poder se afirmar,

para poder transformar

e não se enganar jamais

com as ilusões maquinais do mundo

que nos arrastam ao fundo —

vazios abissais.

Se perder

para desaprender os mapas,

desobedecer às bússolas,

errar de propósito

a estrada que todos juravam

ser a única possível,

única capaz.

Pois há caminhos

que só aparecem

depois que desaparecemos deles.

Há precipícios

que não pedem queda —

pedem asas.

E há quem passe a vida inteira

seguindo placas,

sem jamais chegar

a si mesmo.

Talvez perder-se

seja apenas isso:

deixar para trás

o endereço que nos deram,

atravessar a noite

sem pedir licença às estrelas

e descobrir,

quando o medo já perdeu nosso rastro,

que o abismo também

pode ser passagem.

Se perder

para se encontrar

logo mais —

noutro lugar,

noutro nome,

noutro homem,

mas ainda

em nós.

Chico Kleber

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