ILUSÕES MAQUINAIS
Se perder para poder se afirmar,
para poder transformar
e não se enganar jamais
com as ilusões maquinais do mundo
que nos arrastam ao fundo —
vazios abissais.
Se perder
para desaprender os mapas,
desobedecer às bússolas,
errar de propósito
a estrada que todos juravam
ser a única possível,
única capaz.
Pois há caminhos
que só aparecem
depois que desaparecemos deles.
Há precipícios
que não pedem queda —
pedem asas.
E há quem passe a vida inteira
seguindo placas,
sem jamais chegar
a si mesmo.
Talvez perder-se
seja apenas isso:
deixar para trás
o endereço que nos deram,
atravessar a noite
sem pedir licença às estrelas
e descobrir,
quando o medo já perdeu nosso rastro,
que o abismo também
pode ser passagem.
Se perder
para se encontrar
logo mais —
noutro lugar,
noutro nome,
noutro homem,
mas ainda
em nós.
Chico Kleber

Deixe um comentário