
Os fiapos que restaram não são restos;
são nervuras de um mapa que ainda desenho
com o giz do espanto e o carvão da memória.
O menino que colhia o silêncio das pedras
hoje senta-se à mesa
com o homem que as escreve.
Não há distância entre o mangue do rio Piauí e o papel:
as raízes retorcidas agora são letras,
veias abertas por onde corre o absinto do tempo.
O céu psicodélico de outrora
desbotou para o cinza denso das fotografias,
onde o preto e o branco são as únicas cores
capazes de suportar tamanha claridade.
Ainda escuto o balé dos urubus condores
do sertão ancestral piauiense,
mas agora eles circulam o que calo.
Integro a mangueira da casa de meus pais,
no antigo Setor Marista,
da ainda bucólica Goiânia,
ao precipício, à infância, ao cansaço das mãos,
e faço da afasia uma nota sustentada,
um acorde mudo que vibra
no altiplano da alma.
Sou o trapaceiro
que rouba nuvens do passado
para chover
sobre o deserto do agora.
Chico Kleber
Deixe um comentário