CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

IRMAO DA NOITE(POETA DA URSA MAIOR)

IRMÃO DA NOITE

(Irmao da Noite-Poeta da Ursa Maior)

Irmão da noite,

que caminha a meu lado — descalço e cambaleante —
sobre o silêncio errante,

com olhos de carvão
e asas de sombra, delirante,

traz no peito um relicário
de estrelas partidas, perdidas.

Vem com o vento que não tem nome,

com o tempo que não tem pressa,

com a dor que dança com graça
e grassa em silêncio,

na beira dos abismos, alucinantes.

Irmão da noite,

teu passo é brando
como o sono dos pássaros,

tua voz é feita de ecos antigos,

de murmúrios
que só a lua cheia entende.

Tu recolhes os cacos
dos meus e de outros sonhos

e os costuras com fios de escuridão,

fazendo deles constelações
delicadamente tortas:

mapas para navegantes perdidos.

Irmão da noite,

teu abraço é feito de ausência,

mas tua presença acende
a centelha dos que ainda esperam.

Tu és o guardião dos que não dormem,

o confidente dos que choram calados,

o poeta dos que escrevem com lágrimas
em folhas de neblina.

Irmão da noite,

vigilante,
viajante do crepúsculo,

fica mais um pouco.

Ensina-me a escutar o que não se diz,

a ver o que não se mostra,

a psicografar meus versos mais profundos,

a ser luz — e me conduz

mesmo em meio
ao colossal breu.

Chico Kleber

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