“A intimidade era teatro.”
— Ana Cristina Cesar

Para Ana Cristina Cesar
(02/06/1952 – 25/10/1983)
Procuro alguém terna e triste, sobretudo triste,
para dividir e ruminar meus versos ácidos,
tão absurdamente simples.
Libertar, nas arenas, meus indomáveis tigres
e, nas manhãs de neblina,
se lambuzar comigo nas gotas de orvalho
das geladas gramíneas.
Sentir o sol penetrar,
como fogo quente e incandescente,
nas narinas.
Adormecer sob a relva
selvagem e ríspida.
Que seja despojada e simples,
como um bicho do mato — sei lá —
meio fogo, meio diabo, meio anjo,
poeta marginal, meio índia, quase nua.
Procuro alguém que se pareça comigo,
com meu pai, minha mãe, meus filhos,
com meu umbigo.
Mas, para valer,
tem que ter aquele olhar triste
capaz de apaixonar e lançar para longe
qualquer navio,
e vir dividir comigo a alegria
que ainda insiste em me resgatar
desse estado de poesia.
Procuro alguém assim como eu:
deliberada, melancólica,
disfarçadamente triste.
Volátil, entorpecida de saudade e magia,
inebriante como éter de mimeógrafo,
escorrendo lívida dessa vida etérea
pelo vão do sétimo andar
do apartamento da Rua Toneleros,
na contraditoriamente solar,
reflexiva e risonha Copacabana.
Procuro alguém terna e triste,
sobretudo triste,
contrita, compungida,
de braços abertos,
voando alto como uma reza,
uma promessa feliz de vida eterna.
Procuro alguém como você,
Ana Cristina Cesar.
Chico Kleber
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