CARTOGRAFIA DO EXTRAVIO

Poesia, crônicas, memória, música

ÁGUA TEIMOSA & SANGUE QUENTE

Água Teimosa & Sangue Quente

Lugar de poesia não é
em recôndito de gaveta mofada.
Poesia não nasceu
para o escuro imóvel.

Lugar de poesia, bicho,
é no dentista, no analista, na calçada,
no verso às pressas,
na mão que entrega
e na boca que confessa
o tudo, o nada.

Lugar de poesia
é onde o sol não alcança:
no bolso do terno gasto,
cheirando a naftalina,
no riso faminto da criança,
na barriga da amante
grávida de sonhos —
quem sabe, quádruplos.

Mas também, sobretudo,
no engasgo,
no silêncio que falha
antes da palavra.

Porque o verso não aceita cativeiro.
Vaza.
Escapa.
Irrompe.

Se infiltra
água teimosa,
sangue quente.

E, quando ninguém espera,
acontece:
num guardanapo,
num susto,
num soluço no peito,

 O destino do verso, meu caro,
não é ser lido —
é ser vivido, vívido.

E, se possível,
sobreviver  ao mundo.

Ou ao menos
deixar uma fissura
na pedra do tempo.

Porque quase tudo passa.
Mas o que sangra em linguagem
às vezes fica —

não como estátua,
mas como brasa:
mínima, teimosa,
ardendo no escuro,

à espera
de outro peito
onde possa, de novo,
incendiar-se em palavra.

_Chico Kleber

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